O desafio da inclusão digital da sociedade

O desafio da inclusão digital da sociedade

Diego Puerta*

16 de dezembro de 2020 | 06h00

Diego Puerta. FOTO: DIVULGAÇÃO

A rápida evolução tecnológica tem impactado diretamente na forma como vivemos, nos relacionamos, estudamos e trabalhamos. Com um computador ou smartphone conectado à internet, as pessoas têm hoje acesso a uma infinidade de serviços, recursos e oportunidades. Contudo, esse ambiente cada vez mais digital e conectado aumenta as barreiras para inclusão social e econômica de uma parcela importante da população, que ainda não tem acesso à tecnologia. Vivemos hoje o paradoxo da exclusão digital, o qual afeta países em todo o mundo, inclusive o Brasil. Os dados mais recentes divulgados pelo CGI.br (Comitê Gestor da Internet) apontam que cerca de 47 milhões de brasileiros acima de dez anos (26% da população) não têm acesso à internet e só 39% dos domicílios possuem um PC.

Desde o início da pandemia, diversas instituições internacionais têm chamado a atenção para a importância de os países adotarem medidas concretas para reduzir a exclusão digital. A Organização Mundial do Comércio, por exemplo, acredita que investir no acesso à internet para todos representa uma estratégia essencial para o avanço das economias digitais. E as Nações Unidas já alertaram que a desigualdade social será ainda mais exacerbada se não existirem ações efetivas para promover a capacitação digital da sociedade.

IDC prevê que a economia global atingirá a “supremacia digital” até 2023, na qual mais da metade do PIB mundial  estará concentrado em transações virtuais. O que deve impactar na necessidade cada vez maior de conectividade em toda a cadeia, incluindo clientes, colaboradores, fornecedores e parceiros. O cenário atual gerado pela pandemia representa um retrato do que devemos esperar de uma economia majoritariamente digitalizada. Por conta das regras de distanciamento social, o uso global da internet aumentou 70%, o uso de aplicativos móveis dobrou, os serviços de streaming tiveram ganhos massivos e as organizações que já tinham feito investimentos nas operações online puderam continuar crescendo e prosperando.

Enquanto isso, no Brasil, alguns milhares de empresas poderiam não ter fechado as portas ou feito cortes  se tivessem conseguido adaptar-se mais rapidamente ao ambiente digital. Da mesma forma, uma parte importante da população brasileira que não tem acesso a um computador e à internet foi privada de alguns direitos básicos, incluindo o acesso à educação. Estima-se que cerca de 12 milhões de alunos da rede pública ficaram sem aulas em 2020 por falta de recursos tecnológicos, de acordo com estudo feito pela Comissão da Educação (CE). 

A inclusão digital representa uma grande preocupação, especialmente quando se fala em educação. E esse problema passa por questões físicas como, por exemplo, falta de infraestrutura, conexão com a internet, acesso a equipamentos e outros ativos tangíveis que limitam a capacidade dos estudantes de aprender. Mas há também as desigualdades mais sutis, como falta de conhecimento, habilidades e oportunidades que impedem os jovens de participar de modo pleno da economia digital e de, assim, terem direito a um futuro melhor.

Além de dispositivos e conectividade, a educação e o treinamento digital que capacitam os indivíduos para que eles possam fazer uso pleno dessas ferramentas são necessários e fundamentais. Precisamos olhar além do acesso à internet se quisermos viabilizar a inclusão digital. Ela passa por uma mudança na forma de ensinar e aprender, que leva em conta a preparação de crianças, jovens e adultos para uma nova realidade, cada vez mais digital.

As crises globais podem aumentar as lacunas da exclusão digital, como vimos no caso da pandemia da COVID-19, contudo, às vezes é preciso uma grande ruptura para que haja uma mudança de paradigma. As iniciativas variam muito entre países, mas há uma percepção geral de que os setores públicos e privado estão mais preocupados em tomar atitudes que garantam o acesso e a conectividade a uma parcela cada vez maior da população. No Brasil, vimos, por exemplo, o caso de governos estaduais que distribuíram smartphones com pacotes de dados para que crianças e adolescentes continuassem a estudar de forma digital; ao mesmo tempo em que uma série de empresas privadas fizeram doações de computadores para comunidades carentes.

O que as empresas e as organizações públicas e privadas podem fazer para incluir mais pessoas na economia digital? Acredito que um dos modos mais significativos e efetivos seja criar programas voltados a apoiar iniciativas inovadoras e concretas voltadas a mudar a vida das pessoas excluídas digitalmente, por meio do acesso e da capacitação. Ao trazer a conectividade da internet e os conhecimentos necessários para navegar nesse ambiente para cada vez mais áreas, criamos caminhos digitais, que levam informação e oportunidade para mais pessoas. É preciso que as empresas se unam ao poder público a fim de fornecer as habilidades, o treinamento e a tecnologia para construir essas vias. Só assim conseguiremos criar um mundo no qual a tecnologia digital seja utilizada para aumentar o potencial humano, garantindo uma economia sustentável e uma sociedade na qual todos tenham oportunidades de crescimento e sucesso.

*Diego Puerta, líder da Dell Technologies Brasil

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