O Deputado… ou… o Cinismo

O Deputado… ou… o Cinismo

José Ernesto Bologna*

18 Novembro 2017 | 05h00

FOTO: DIVULGAÇÃO

Começo perguntando sobre aquilo que pretendo, e que prometo, buscar como resposta, e ao final apresentá-la.

Considerando suas implicações morais, em especial aquelas de alcance comportamental para fins éticos, esse “ou”, acima, é inclusivo ou exclusivo?

Seria, o substantivo “deputado” um sinônimo do substantivo “cinismo”?

Ou seriam alternativos? Onde há deputados não há cinismo, e vice versa.

Como representantes do povo, legitimados pelo voto, a transparência de propósitos dos deputados em geral – e de cada um deles em particular -, jamais deveria passar próxima ao cinismo, é excludente portanto.

Porém, sabemos, a assustadora apropriação da razão e da retórica para ludibriar a relação entre as falas e os atos, ou entre os atos e as falas, tem crescido a ponto de colocar a sociedade sob grave risco: banalizar, trivializando, a extrema violência do cinismo e dos males que acarreta, a começar pelo atropelo da justiça e a terminar por dificultar enormemente o desenvolvimento moral da juventude.

Triste, lamentável e irresponsavelmente, aconteceu conosco.

Banalizamos o cinismo aceitando-o como gesto defensivo e compreensível, advogando-o como um direito cidadão, tomando como prática normal a extrema violência que o cinismo, em si mesmo, configura. Ou seja, normalizamos o cinismo como manobra retórica legítima, como hábito verbal e cognitivo, e seja pelo encanto que alguns notam na sua engenhosidade narcisista e moralmente deletéria, seja pelo humor que, sempre ansiosamente, em nós desperta, o cinismo tomou conta dos discursos. A consequência, pavorosa, é a progressiva desvinculação entre os atos e as palavras, ocultando as intenções, que quase sempre estão na cara. Com isso, a conduta tem uma lógica, a fala outra.

Como “realidades paralelas”, pouco devendo entre si, as palavras e as ações se distanciam. Negar, negar, negar, tudo aquilo que se aproxima de verdades necessárias e afirmar, afirmar, afirmar, tudo aquilo que é virtude inexistente, que é falsa inocência, procurando sair do assunto, evadir-se das perguntas, relativizar axiomas e princípios, seguindo o arcaico hábito sofista de atacar as premissas maiores, derrubando as ilações e as inferências, impedindo as conclusões e os julgamentos. Fazer com que as discussões nunca terminem, que não haja acordos, que os contratos mais e mais se dissociem das promessas. Atender todos os lados, ficar bem com todo mundo, não importando quais tangências aprimoram a realidade com a verdade, ou degradam a verdade, submetendo-a à realidade.

Dizem que houve um povo – espero que não seja apenas lenda – os Citas, que julgavam e puniam severamente os cínicos alegando uma razão tão verdadeira que atual. Em duríssima pena desumana, os Citas cegavam os cínicos. Arguidos, diziam eles que cegavam os cínicos para que “pudessem ver”, e se a pena é certamente desumana, ao mesmo tempo ela se apoia num considerável argumento – capaz de unir idealismo esperançoso e realismo responsável – os Citas diziam que os cínicos enxergam as coisas como são, e não como deveriam se tornar. Diziam que seu brutal pragmatismo resolvia seus problemas no presente, mas que nenhum futuro aprimorado restaria das suas práticas. Diziam os Citas que, com os cínicos ativos, a possibilidade da verdade melhorar a realidade, dos princípios orientarem os fins, tendia a zero.

Sabendo-o filho da esperança e neto da indignação, escrevi um livro.

Perguntei-me, ao mesmo tempo, se não seria filho da indignação e neto da esperança. De qualquer forma a esperança está presente, e ali discuto se a perplexidade é capaz de produzi-la. Acho que sim!

O título do livro é exatamente o que aqui está: “ou” inclusivo.

Por ter nascido de um enigma, de início eu o chamei “O Vulto e a Caixa” – como destrancar uma caixa cuja única chave que a destranca está trancada dentro dela? – a alegoria serve em muitas situações.

Os antigos chamavam de caráter, se referindo à correlação entre as promessas e as entregas, ou ao menos entre as promessas e os empenhos. Mais recentemente os humanistas de vertente estrutural chamariam de atitude. Aos psicanalistas coube um método de investigar as intenções, tentar fazer com que um honesto corajoso desconfie de si mesmo a ponto de se aprimorar constantemente. Aos cínicos modernos, bem atuais, cabe a vaidosa convicção da sua inocência. Uma tal convicção constrói certezas, tais certezas não convencem, mas o risco é de que vençam. Assim tem sido, quero crer que não será.

Se a raiva reprimida de um honesto e ativo empreendedor viesse à tona?

Se ele pudesse dizer algo aos deputados em geral, na pessoa de um deputado singular, o que diria?

Devemos acordar para um fato assustador: os cínicos nos roubam o discurso. Ficamos mudos porque perplexos e perplexos porque mudos.

O cinismo produz ódio onde se quer democracia. Ele gera a raiva de se sentir manipulado e avança pelas hipóteses malignas da retaliação em igual calibre, caso em que se alastra e contamina. A outra hipótese é pior, o cinismo produz a letargia, a hipnótica sonolência coletiva sobre a qual o cinismo quer reinar.

Crer na potencia das palavras é um imperativo do contrato. Elas podem melhorar as realidades. Se é verdade que habitamos a linguagem, degradá-la, permitir que a humilhem tanto, é demolir a própria casa que tentamos construir para habitar.

Essa casa é o contrato social. Ele é feito de uma linha que conecta falas, atos e intenções. Atos, vemos; quanto às falas, as ouvimos; resta a difícil arte de interpretar as intenções. Uma tal arte implica a confiança – essa forma construtiva e corajosa da imprudência -, confiança sem a qual não há futuro, sem a qual tudo é aqui, tudo é real, e muito prático, não há verdades, não há ideais orientadores porque não são reais ainda. Não há ideais que se candidatem a vir a ser reais, porque os cínicos destruíram a linguagem.

A linguagem é a oficina do escritor, é o escritório do poeta. Daí que em prosa e verso é preciso combater os detratores da linguagem. Recolocar verdades que melhorem as realidades, falar bem do bem tanto quanto se fala mal do mal, muito melhor se mais ainda. Além disso, é preciso retomar a língua culta. Deixar que diga o que não diz a língua espessa.

Assim, conforme prometido de saída, anuncio um final candidato a ser o inicio.

Toda história se faz de inflexões. Algumas chegam intempestivas, outras derivam de reflexões. Cada um com seu idioma. Minha intenção foi além de provocar. Minha intenção foi invocar e convocar. Peço que leiam.

Honestos pensantes que habitam a linguagem, não permitam que a degradem.

*Psicólogo e professor na Fundação Dom Cabral

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