O delírio das reformas

O delírio das reformas

José Renato Nalini*

08 de janeiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Há muita fantasia a povoar a mente dos reformadores. São inúmeros os assuntos que ganharam especialistas, ávidos por oferecer receitas transformadoras da realidade. O sistema Justiça, a política partidária, o meio ambiente, o urbanismo, o saneamento básico, a habitação, a desigualdade, a infraestrutura, tudo passou a dispor de expertos donos da verdade.

Não é diferente em relação ao maior problema brasileiro. Talvez o único suscetível de realmente converter esta Nação num país com que já sonhamos um dia. Falo da educação.

Todos os problemas nacionais, sem exceção, ou seriam solucionados ou ao menos atenuados, tivéssemos uma escola de qualidade.

O drama é que a massa mais necessitada, parece estar satisfeita com a educação. Parcela considerável dos brasileiros está interessada em que a criança tenha transporte e alimentação. Se está aprendendo ou não, isso é secundário.

Não existe consenso entre os destinatários do sistema educacional estatal e os peritos em educação. Por isso é que as reformas não têm dado certo.

As finalidades da educação no Brasil estão bem definidas na Constituição. Fazer com que o educando possa explorar todas as suas potencialidades de aprendizado, rumo à conversão do conhecimento em sabedoria, até que atinja a plenitude possível. Ou seja, uma tarefa interminável, que não se encerra em qualquer ciclo escolar, seja o fundamental, o médio ou o universitário.

Segunda finalidade, propiciar que o aluno desenvolva a sua capacidade de exercer a cidadania. Cidadania que Hannah Arendt conceituou como “o direito a ter direitos”. Terceira, qualificar o estudante para o trabalho.

Nenhum desses três objetivos tem sido plenamente obtido, a despeito da tonelagem de estudos, diagnósticos, propostas e projetos. Embora se propale a universalização do acesso à escola, o que seria grande tento, o resultado é pífio. A maior parte dos egressos mal sabe soletrar, tem ojeriza pela leitura, não consegue fazer operações aritméticas primárias e ainda acumula ao analfabetismo funcional o analfabetismo digital.

O ano de 2020 permitiu aos lúcidos enxergarem a calamitosa situação deste Brasil. Milhões de invisíveis, de excluídos, de hipossuficientes, de sem moradia, de sem emprego, de sem perspectivas e de sem esperanças.

A obtenção de um diploma não equivale à consecução de tais metas: não se conseguiu fazer com que a transmissão de informações gerasse sapiência, não se aprimorou a cidadania e o exército dos desempregados é o testemunho de que a escola não qualifica para o trabalho.

Onde está o erro?

A escola brasileira é anacrônica. Não enfrenta os desafios da 4ª Revolução Industrial. Parece ignorar que as novas gerações são nativas digitais e não se adaptam mais ao ensino analógico. A igualdade de oportunidades para todo aluno tem de passar por oferecer-lhe ferramentas que viabilizem uma equalização. O ensino médio precisa produzir graduados capazes de competir por trabalho próprio a uma economia globalizada.

O exercício da cidadania se faz com o treino diário do alunado para resolver as questões aparentemente insolúveis de nossas cidades. A falta de verde, a sujeira, o desrespeito em relação a tudo o que é público, a ausência de comprometimento com a edificação de uma sociedade justa, fraterna e solidária.

Não é com aulas prelecionais, sem que se saia a campo, que os milhões de crianças e jovens que passam por nossas escolas vão ser despertados para um saudável exercício da cidadania, que não é só exigir direitos. É também assumir obrigações, deveres e responsabilidades.

O desenvolvimento individual de cada aluno depende de uma tutoria de um docente capacitado a distinguir as dificuldades de cada estudante. Repetir informações desatualizadas, que se consegue atualizar instantaneamente nos sites de busca, não propicia o desabrochar de uma personalidade singular, irrepetível e heterogênea. A padronização empobrece o aprendizado. Mas a teimosia insiste em repetir algo que há muito tempo já não dá mais certo.

Se a escola tivesse ousado, haveria maior respeito ante a diversidade, levar-se-ia a sério o princípio do pluralismo, explícito no pacto fundante mas tão pouco observado. Uma escola sedutora teria formado uma geração de leitores, de curiosos investigadores do complexo exuberante de saberes, que apaixona aqueles que foram despertados para a incessante busca do conhecimento.

Um professor não é um inerte transmissor de dados. É um construtor de valores. Uma juventude que é cooptada pelos traficantes, pelo crime organizado, pelo álcool, pela volúpia sensual e pela velocidade, não teve como inspiração uma liderança que a despertasse para a honestidade, cooperação, lealdade, serviço à família e à comunidade, ética, a matéria prima de que o Brasil mais se ressente em nossos dias.

Reformar primeiro é a mentalidade dos especialistas. Muitos deles, teóricos respeitados, mas muito distantes das escolas da periferia, ausentes da trincheira, onde batalham professores ignorados, desrespeitados e, por isso mesmo, desalentados.

Acorda, Brasil! Prestigie o professor, reabilite a nobreza de seu mister, incentive-o a adotar as melhores práticas e fuja da padronização. Pessoas são singulares e heterogêneas. Cada uma delas merece um tratamento especial. É o que dará certo, não a mesmice frustrante que afugenta da escola a maior riqueza com que ainda se pode contar: um aluno ávido por uma educação para esta era, não aquela que serviu para seus bisavós.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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