O declínio do ‘camisa 10’ e a gestora de investimentos do futuro

Raquel Camanho*

26 de abril de 2019 | 06h00

Houve um tempo em que a descoberta de uma jazida de ouro dependia de um desbravador. Era comum aquele sujeito que tinha o ‘faro’ e, por conhecimento, instinto ou mesmo sorte era o responsável por encontrar o que seria fonte de riqueza por anos e anos. Com a exploração da área e o desenvolvimento da sociedade, esse personagem começou a perder relevância e os processos e recursos tecnológicos ganharam espaço nessa ‘corrida ao tesouro’.

Após essa derrocada, a primeira pergunta que costuma vir à cabeça é se, com essa mudança de comportamento -se assim podemos dizer-, os ganhos e a quantidade de ouro a ser explorada pós desbravadores foi reduzida. Eu tenho certeza que não. No período colonial, a máxima anual de extração de ouro era de cerca de 15 toneladas, enquanto só em 2011, o País já chegou a produzir legalmente mais de 65 toneladas (DNPM).

Costumo levar essa metáfora para a realidade atual do mundo dos investimentos. Ainda hoje, é comum que o sucesso de um fundo seja atribuído exclusivamente a uma pessoa, aquele ‘camisa 10’ que descobre a ‘fonte de ouro’ e consegue, por atributos próprios, a forma de ganhar dinheiro alocando recursos no momento e lugares certos.

Não que eu veja essa tendência como negativa, mas acredito que a gestão desse negócio pode ir muito além de um desbravador, de uma única ‘cara’. Hoje a quantidade de ativos é infinita e as possibilidades também. A importância da tecnologia, dos processos e do olhar de um time pode ser muito mais relevante para garantir o sucesso de uma gestora.

Em primeiro lugar, acredito que a alta tecnologia tem papel fundamental na análise do mercado financeiro. Por meio dela é possível não só facilitar a análise de ativos, pela automatização por exemplo, como melhorar o processo de ordem sistemática. A quantidade de informação é infinita e impossível de ser filtrada apenas pela mente humana.

No entanto, nem só dela podem partir as decisões. Em um mundo em que a diversidade é pauta (ainda bem), um time qualificado e heterogêneo faz toda a diferença. Acredito na análise qualitativa como diferencial, mas que esta seja feita por mais de uma ‘cabeça’. A ideia de que um gênio sozinho é responsável pelo sucesso começa a perder espaço, fazendo com que as características individuais, mas unidas em um time ganhem importância.

Por último, assim como o conhecimento definiu processos para a exploração de ouro, também vemos a democratização das informações sobre mercado. Focar nos objetivos e definir estratégias é essencial para o sucesso de qualquer gestão que trabalha por resultados. Mas o fato deste estar aberto a todos não implica na redução do lucros, assim como aconteceu no longo e contínuo processo da busca por esse metal precioso.

*Raquel Camanho, da GEO Capital, gestora brasileira com foco em investir, exclusivamente, em ações globais fora do País

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