O declínio da vida pública

O declínio da vida pública

José Renato Nalini*

27 de novembro de 2020 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

É para desanimar a constatação de que os candidatos que se oferecem para as eleições nem sempre – ou quase nunca, é melhor – são providos de atributos que os qualifiquem para a gestão da coisa pública.

Mediocridade geral seria a definição mais correta do cenário, considerada a média dos concorrentes.

Mal não faria aos ávidos por empolgarem o poder, conhecer a vida de políticos que já se foram e para os quais não há refil.

Pense-se, por exemplo, em Winston Leonard Spencer Churchill (1874-1965). Duas vezes Primeiro Ministro da Inglaterra, inclusive durante a II Guerra Mundial, não era um despreparado. Muito longe disso. Não foi acaso merecer um Prêmio Nobel de Literatura.

Fez curso militar, participou de várias guerras evidenciando excepcional bravura. Acumulava o exercício militar à função de jornalista. Era correspondente de guerra bem remunerado. O jovem promissor, cujo pai fora respeitado homem público, na opinião de oficiais mais experientes escrevia “demasiadamente bem para continuar no Exército, onde seu talento será desperdiçado e onde seus escritos trarão problemas mais cedo ou mais tarde”. O Príncipe de Gales escreveu-lhe: “Tem uma grande facilidade para escrever, o que é uma vantagem. Espero apenas que seja prudente nos seus comentários e que evite críticas corrosivas que possam ofender as autoridades”.

Todavia, era ansioso por combater de verdade. Criticava a fúria que se abatia sobre as Forças Armadas, diante do investimento que nelas fazia o Império Britânico. Sua correspondência enfatizava o paradoxo : enquanto “contava com a humilde submissão dos mais ferozes selvagens da Ásia, o Exército era atacado pelos insultos e censuras de nossos conterrâneos em nossa Pátria”. Nada muito diferente do que continua a ocorrer em várias partes do mundo.

Preocupava-se também com a ética. Para a United Services Magazine, escreveu um artigo sobre a ética na política de fronteira. Enquanto isso, escrevia contos e se propunha biografar Garibaldi, cuja vida considerava admirável. Escreveu a vida de seu pai, também biografou o primeiro duque de Marlborough e a história da Guerra Civil Americana.

Sempre acreditou em sua predestinação. Em carta à sua tia Leonie, que elogiava seu primeiro romance, modestamente admitiu: “Espero produzir mais tarde qualquer coisa realmente boa. Você sabe que tenho uma fé ilimitada em mim mesmo!”.

Contudo, era um gastador. “Eu sou extravagante?”. Perguntava retoricamente. E ele mesmo respondia: “Eu não vou às corridas, não bebo, não jogo, não esbanjo meu dinheiro com concubinas. Apenas não dou muita importância a contas e pequenos prazeres que existem nesta desgraçada existência”.

Era bastante racional, desde muito jovem. Confessava raramente detectar nele mesmo uma emoção genuína. Sabia de seus talentos e não hesitava em assumir-se superior à maioria. Compreendia que suas opiniões não seriam populares numa época de “chauvinismo patriótico”. Disse à mãe que a culpa era de todos os “booms de sentimentos”, que levam os homens longe demais e provocam reações. Para ele, “o militarismo degenera em brutalidade. A lealdade promove tirania e sicofantismo. O humanitarismo torna-se sentimental e ridículo. O patriotismo oculta a hipocrisia. O imperialismo cai no chauvinismo”.

Foi lutar no Egito e, nada obstante seu preparo intelectual, foi para a linha de frente. Tinha vontade enorme de protagonizar a guerra: “tenho um desejo intenso e primitivo de matar vários desses odiosos dervixes e mandar o resto dessa peste para o inferno e divirto-me muito antevendo esse momento. Gostaria de começar amanhã”.

O momento chegou. Lutou com destemor. Permaneceu inabalável: “nada, nem sequer o conhecimento da destruição que se aproxima, me fará voltar atrás, mesmo que o pudesse fazer com honra. Regressarei depois, mais sábio e mais forte, para disputar meu jogo. E então pensaremos em outras esferas mais vastas de ação. Tenho muita fé – em que eu não sei – de que não serei ferido”.

Isso não o impediu de criticar seu comandante, que matava feridos inermes sem compaixão. Também foi severo crítico do vandalismo perpetrado pelo Exército Inglês, ao destruir “o único belo edifício que poderia atrair viajantes e despertar o interesse dos historiadores. É um sombrio augúrio para o futuro do Sudão que o primeiro ato de seus civilizados conquistadores e atuais governantes tenha sido arrasar o único pináculo que se erguia acima das casas de lama”.

Estes episódios, superficialmente referidos, são extraídos do primeiro volume da obra “Winston Churchill – uma vida”, de Martin Gilbert, seu biógrafo oficial. É o suficiente para propiciar a comparação entre os perfis de um tempo e os de hoje. Será que isso explica o desencanto da juventude com a Democracia Representativa? Há remédio para reverter a tendência de crescente descarte da política partidária, tal como praticada em países subdesenvolvidos?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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