O darwinismo digital

O darwinismo digital

Marcello Póvoa e Luis Hor-Meyll*

28 de março de 2021 | 06h30

Marcello Póvoa e Luis Hor-Meyll. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

Inevitavelmente, associamos iniciativas digitais a magníficas oportunidades de negócio. Brilham os olhos ao imaginar Mark Zuckerberg escrevendo código, em quarto de universidade, para que sua empresa conseguisse captar audiências planetárias, ou Jeff Bezos, em modesto escritório, concebendo a maior disrupção em escala já vista no varejo. Mas não precisamos ir longe: no Brasil, temos inúmeros exemplos de unicórnios – startups avaliadas em pelo menos 1 bilhão de dólares.

Tais oportunidades acontecem não apenas em novas empresas, mas também em companhias estabelecidas que passam por processo de transformação digital. No Brasil, temos inúmeros exemplos de corporações, em segmentos distintos, que investem com sucesso em iniciativas digitais que alteram desde o comportamento de culturas organizacionais até a forma de interação com o consumidor.

No entanto, nem tudo são flores. Caminhos digitais, em geral, estão longe de encontrar o pote de ouro ao final do arco-íris. Todos os exemplos citados de iniciativas digitais, no Brasil ou fora, fazem parte do grupo que deu certo. São, contudo, minoria absoluta: mais de 90% fracassam. Dentre os poucos que sobrevivem, fração infinitesimal atinge valuation próxima à de um unicórnio.

Corporações estabelecidas não fogem ao padrão: incontáveis iniciativas digitais em empresas não funcionam, consumindo volumes incríveis de recursos e de caixa. Obviamente, só se tornam públicas iniciativas de transformação digital interna que deram certo. Ou seja, tanto em startups, como em empresas estabelecidas, impera o darwinismo digital, cruel, sanguinário. Como na evolução biológica, o sucesso digital é exceção.

Surge então inexorável pergunta: por que iniciativas digitais têm taxa de fracasso tão alta?

Existem muitas razões conjunturais e estruturais para um negócio não prosperar. Mas vamos focar em um aspecto crucial e muito comum nos caminhos digitais. Michael Dell, CEO e fundador de uma gigante do setor de tecnologia, diz, com sua experiência e sabedoria, que “… ideias são commodities. A execução delas não é…”. Ou seja, a execução é fator mais crítico do que a ideia. Note que executar bem não é mais importante do que a ideia, é apenas mais determinante para seu destino. Muitos conceitos são fantásticos na apresentação para investidores ou executivos, mas o processo de materialização sucumbe em algum momento. Na verdade, não é incomum observarmos ideias medíocres sobreviverem mais tempo, simplesmente porque foram melhor executadas.

Qual seriam então os principais desafios para a boa execução de uma ideia digital? Ela precisa materializar-se em um produto digital (app, site, software). Nesse processo, entram variáveis multidisciplinares de três áreas do conhecimento: Business, Criação e Tecnologia, cada uma englobando enorme quantidade de conhecimentos, estratégicos e operacionais, cruciais para o sucesso. Se uma iniciativa “esquecer” de considerar com propriedade alguma dessas áreas, estará fadada a fracassar.

Geralmente, equipes são mais fortes em uma das áreas, por isso acabam deixando a desejar em outras. Podem ser craques em tecnologia, mas não terem bom plano de negócio e darem pouca atenção ao design da experiência do usuário (criação). Ou vice-versa. É difícil recrutar equipes que sejam sólidas em todas as áreas críticas. Consequentemente, a gestão do ambiente multidisciplinar é desafiadora, já que profissionais com formações tão diferentes têm culturas distintas para trabalhar, o que dificulta sua gestão e a dos processos.

Apresentamos neste artigo alguns dos principais motivos para a alta taxa de fracasso de startups e de iniciativas digitais em empresas estabelecidas. Fica cada vez mais claro que os processos envolvidos em produtos digitas não são de transformação digital e sim de verdadeira metamorfose digital. O negócio deve ser intrinsecamente digital em seu DNA, com todas as complexidades que o caminho apresenta.

*Marcello Póvoa e Luis Hor-Meyll são coordenadores do curso Produtos Digitais: Gestão, Concepção e Construção, do IAG – Escola de Negócios da PUC-Rio

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