O crime glamourizado

O crime glamourizado

Flavio Goldberg e Valmor Racorti*

14 de outubro de 2021 | 07h00

Flavio Goldberg e Valmor Racorti. FOTOS: DIVULGAÇÃO

A comunicação e a cultura vêm expandindo nos últimos anos procedimentos que caracterizam a chamada “sociedade do espetáculo”.

Estudiosos da matéria que vão de Elias Canetti à Marshal Mcluhan demonstram que a excitação passional é uma sedução fácil, encanta, principalmente, as pessoas, intelectualmente, pouco dotadas afetivamente, carentes.

Nesta realidade o comportamento criminoso possibilita um campo fértil de identificação tipológica com assassinos, ladrões, gângsteres que agem na contestação social violando princípios morais e consenso civilizatório.

Alguns anos atrás a exibição de terroristas muçulmanos cortando cabeças de inimigos e exibindo a execução pela televisão acabou ensejando a repetição da brutalidade sádica em muitos países, inclusive em penitenciarias brasileiras.

Ainda agora vemos pela Netflix uma série com sucesso extraordinário de audiência “Round 6” com a romantização da barbárie, bandidos como heróis.

A linguagem magica que excita nestas formulas de narrativas é o cenário de intensidade e exuberância tão escassos na cultura pasteurizada, monotemática, das linhas de produção do cotidiano contemporâneo.

O que atrai já não é mais tanto o turismo geográfico universalizado ou mesmo os esportes de luta, mas o “show” de terror que amplia cada vez mais seu campo no desrespeito à dignidade do corpo e à vida do indivíduo.

Paradoxalmente, uma indiferença pela dor alheia, o sofrimento da vítima, que se transforma num estilo mercadológico de viver.

O canalha insinuante don juanesco, conquistador de mulheres, cafetão maquiado, contrabandista com aparência de sultão, o machão que na “pegada” acaba matando a jovem indefesa, são as fotos no algum do crime-maldade que serve de roteiro a um romance, em que se esconde pedofilia até em instituições milenares, guerrilha político-ideológico, e todo gênero de artimanhas no arsenal de uma concepção alienada e esquizofrênica dos mecanismos da realidade como Polícia e Exercito, Poder Judiciário, órgãos de segurança pública que não podem ser satanizados no vácuo da organização social e comunitária.

Não existe uma zona cinzenta entre a Lei e o Crime, mas a fronteira intransponível sem a qual o império da perversidade subverte a solidariedade como tecido harmônico de progresso que harmoniza as naturais tensões intimas da contingencia humana.

*Flavio Goldberg, advogado e mestre em Direito

*Valmor Racorti, tenente-coronel, comandante do Batalhão de Operações Especiais

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