O crescente desmatamento na Amazônia

O crescente desmatamento na Amazônia

Mariangelica Almeida*

17 de julho de 2020 | 07h00

Mariangelica Almeida. Foto: Divulgação

Na última semana de junho, repercutiu no noticiário brasileiro a ameaça dos fundos de investidores europeus saírem do Brasil em resposta ao crescente desmatamento na Amazônia. O risco de debandada, conforme divulgado em alguns veículos, está cada vez maior por parte de investidores que administram fundos com mais de U$ 2 trilhões em ativos.

Os fundos expressamente identificados compõem um grupo de sete das maiores administradoras de ativos, que inclui Storebrand, AP7, KLP, DNB Asset Management, Robeco, Nordea Asset Management e LGIM.

Em carta entregue a sete embaixadas brasileiras na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, essas empresas afirmaram que as condições de incertezas provocadas pela escalada do desmatamento nos últimos anos tende a afetar, principalmente, produtores de carne, operadoras de grãos e até títulos do governo brasileiro.

Dentre as empresas que assinaram o documento, a mais significativa em termos de volume de ativos é a LGIM, braço de gerenciamento de investimentos do Legal & General Group – empresa do FTSE 100, que é uma das maiores gestoras de ativos da Europa e um grande investidor global. Em 31 de dezembro de 2019, o grupo administrava uma carteira com ativos no valor de 1,2 trilhões de euros.

A Storebrand, que se denomina como a maior administradora de ativos privados da Noruega – com uma carteira de cerca de 85 bilhões de euros – e também fornecedora nórdica líder de pensões e economias sustentáveis, também assinou a carta. Há mais de 20 anos ela oferece investimentos em companhias com claras políticas de combate à exploração de trabalho escravo, políticas inclusivas e de remuneração igualitária entre homens e mulheres, além de levar em consideração o claro compromisso dessas empresas com boas práticas ambientais, observando se elas oferecem soluções amplas e escaláveis para investidores institucionais e privados na região nórdica e em outros países europeus. Isso é feito por meio de uma plataforma multimarcas, com as marcas Storebrand Funds, SKAGEN Funds e Delphi Funds, além dos SPP Fundos na Suécia.

Já a Robeco, outra empresa que deixou sua assinatura na carta, é um fundo administrador internacional de ativos que tem em sua carteira ampla gama de investimentos ativos, pensões e ações a títulos que possui 146 bilhões de euros. Além disso, ela conta com diversos investimentos em mercados emergentes desde 1930 e tem por tradição o desenvolvimento de estratégias de investimento de alto rendimento desde 1998. Somente na carteira de produtos com investimentos em empresas de baixo impacto ambiental e social, há 131 bilhões de euros, além de ela mesma empregar 873 pessoas em 17 escritórios em todo o mundo.

A maior razão desses fundos de investimentos lançarem esse alerta de desinvestimento no Brasil, portanto, está diretamente relacionada ao perfil dos seus clientes, que basicamente se divide nos Baby Boomer (com idades entre 55-65 anos),  Geração X (entre 40-54 anos) e Millennials (entre 25 – 39 anos), sendo os mais jovens os maiores investidores desses fundos.

São esses investidores das gerações X e Millennials que têm admitido perder um pouco de seus retornos em investimentos, desde que as empresas que recebem seus aportes sejam compromissadas com boas práticas sociais e ambientais. Eles exigem a apresentação de relatórios pormenorizados das empresas que recebem os seus investimentos, comprovando que suas gestões estão firmemente comprometidas em diminuir os impactos que resultam em eventos relacionados com as alterações climáticas, assim como adotam amplamente políticas inclusivas e de impacto social positivo.

Assim, o que há de fato é um novo investidor que exige das empresas que receberão seus aportes, o efetivo compromisso com as pautas sociais e ambientais, pois compreendem que, com a elevação das temperaturas médias anuais, haverá perdas em áreas produtivas, redução da área de floresta, diminuição de chuvas em algumas regiões e chuvas torrenciais em outras, além de temperaturas muito elevadas ou muito baixas, o que impacta diretamente na economia. Compreendem que eventos climáticos extremos podem acarretar em maior ocorrência de desastres ambientais – fatores que podem impactar negativamente no PIB de países que recebem seus investimentos e nos lucros dessas empresas.

Práticas sociais ilegais também podem levar a um excesso de judicialização trabalhista, multas e problemas de imagem, além, é claro, de intensificar as desigualdades regionais, levando ao colapso empresas nas quais investem e comprometendo seus lucros.

Por tudo isso, é de suma importância que as agendas governamentais federais e estaduais sejam muito transparentes e permitam não só às empresas brasileiras, como também aos investidores estrangeiros acesso ao máximo de informações confiáveis, tanto para determinar diretrizes de conduta, quanto para possibilitar o acompanhamento por parte desses investidores que desejam manter seus recursos num país que tem um grande potencial econômico, mas carece de transparência na socialização de adoção de políticas claras nas áreas sociais e ambientais.

Tais medidas devem ser implementadas tanto pelo governo federal (que recebe investimentos em títulos do tesouro), quanto pelos governos estaduais (que exercem a efetiva fiscalização local dos empreendimentos que impactam o meio ambiente), assim como pelas próprias empresas interessadas em receber esses investimentos. Não se trata somente de políticas e ações de combate ao desmatamento na Amazônia, e sim de garantir um melhor ambiente de negócios, com manutenção do retorno do investimento, cujos investidores exigem melhores práticas ambientais e sociais das empresas que recebam seus aportes.

*Mariangelica Almeida, advogada ambiental do Escritório de Advocacia Bastos Freire

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.