O crédito em 2021

O crédito em 2021

Elias Sfeir*

11 de fevereiro de 2021 | 09h30

Elias Sfeir. FOTO: DIVULGAÇÃO

É indiscutível que o desempenho do mercado de crédito, em 2020, foi um dos principais instrumentos usados para impedir um tombo maior da economia brasileira diante da pandemia — e, ao mesmo tempo, para permitir rápida retomada da atividade econômica a partir do segundo semestre. De fato, a carteira de crédito consolidada do Sistema Financeiro Nacional cresceu 15,5% no ano passado, puxada por alta de 21,8% no crédito às pessoas jurídicas e por expansão de 10,9% no crédito às pessoas físicas. Foi o maior ritmo de crescimento do crédito dos últimos oito anos.

Vários fatores estiveram na raiz desse vigoroso crescimento, quase todos relacionados às medidas  monetárias  adotadas para combater os impactos econômicos adversos da pandemia:  redução da taxa Selic para patamares mínimos históricos; liberação de compulsórios e relaxamento de medidas macroprudenciais visando a expansão da liquidez; criação de linhas de crédito para capital de giro sob condições especiais; fortalecimento de fundos de avais para facilitação do acesso ao crédito pelas micro e pequenas empresas; transferência de renda via auxílio emergencial, dentre outras.

Mas, além das medidas oficiais anticrise que turbinaram o mercado de crédito no ano passado,  algumas medidas de mercado também foram relevantes. Por exemplo, a postergação – ainda que temporária – do prazo de negativação das dívidas por parte dos birôs de crédito, o que  facilitou e viabilizou amplo movimento de renegociação de dívidas. Além disso, com as taxas de juros em patamares mínimos históricos, desestimulando os investimentos em renda fixa, os imóveis voltaram a ser vistos como  alternativa de investimento de médio e longo prazos, e, assim, presenciamos forte expansão do crédito imobiliário.

É indispensável também mencionar que o novo Cadastro Positivo, ao possibilitar melhor avaliação do risco de crédito por meio do aprimoramento do cálculo das notas de crédito, esboçou sua parcela de contribuição para a redução dos juros pagos pelos tomadores de crédito, além de ter estimulado o acesso ao crédito e o aumento da concorrência entre as instituições financeiras. De fato, se considerarmos os balanços divulgados com base em setembro de 2020, a participação dos cinco maiores bancos no total da carteira de crédito foi de 65,6%, o menor percentual de concentração dos últimos cinco anos, porém ainda longe do ideal.

Diante do exposto acima, a grande pergunta que fica é: como vai se comportar o crédito em 2021? A resposta a essa questão passa, necessariamente, por uma hipótese de como estará o cenário econômico neste ano que recém se inicia. E, quanto a isso, nosso cenário básico contempla um processo de continuidade da recuperação econômica iniciada na segunda metade do ano passado, embora em ritmo menos acelerado. Claro, na medida em que a imunização da sociedade avança, e os diversos agentes e setores econômicos retornam  gradualmente a um contexto operacional de maior normalidade, todo o arsenal anticrise adotado em 2020 vai sendo desmontado.

Assim, mesmo que a taxa Selic suba um pouco, a fim de garantir o cumprimento da meta de inflação, mesmo que a inadimplência se eleve um pouco, dado o fim do auxílio emergencial ainda num contexto de desemprego elevado, e mesmo que as linhas emergenciais de crédito deixem de ser renovadas, ainda assim as forças de mercado – melhora no grau de confiança de consumidores e empresários; retomada gradual do nível de emprego; continuidade da expansão do crédito imobiliário; disseminação dos efeitos do Cadastro Positivo; e implementação do Open Banking – proporcionarão mais um ano bastante positivo para o mercado de crédito em 2021.

Claro que dificilmente repetiremos a alta de pouco mais de 15% observada no ano passado, mas um crescimento próximo a 10% do mercado de crédito em 2021 é perfeitamente factível. E as duas grandes carteiras – pessoa física e pessoa jurídica – devem avançar bem mais próximas uma da outra, diferentemente do que ocorreu em 2020, quando a carteira dessa última cresceu praticamente o dobro da primeira.

Enfim, 2021 promete ser mais um ano positivo para o mercado de crédito, que segue se aprimorando, tendo em vista a disseminação de inovações recentes  (como Cadastro Positivo e Open Banking), que lhe permitem operar em níveis cada vez mais eficientes, o que é fundamental para garantir a sustentabilidade do nosso crescimento econômico.

*Elias Sfeir, presidente da Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC)

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