O crédito e a salvação da lavoura

O crédito e a salvação da lavoura

Elber Laranja*

10 de fevereiro de 2021 | 10h45

Elber Laranja. FOTO: DIVULGAÇÃO

O assunto crédito para empresas vem a reboque de praticamente todas as tratativas sobre iniciativas para minimizar os efeitos econômicos da pandemia. Estados, municípios, União, entidades de fomento a empresas e outras classistas se mobilizam para encontrar alternativas de produtos financeiros que possam socorrer o caixa de empresas enfermas pela fuga de clientes nos últimos meses. Seria mesmo o crédito a salvação da lavoura?

Analisando o histórico econômico do país nos últimos 100 anos, para não ir muito longe, pode-se verificar que o Brasil não é o tipo de pátria que vive momentos de crises, mas sim em estado de crise, com espasmos de prosperidade.

A quarta maior tributação para empresas do mundo, a oneração da folha de pagamento, os mais de 11 mil sindicatos, a infraestrutura precária, o ambiente jurídico complacente com devedores, as altas taxas de juros, a concentração bancária, a falta de segurança, entre outras centenas de coisas, são aspectos que tornam o ambiente desfavorável para empresas no Brasil, e isso não começou junto com a crise da Covid-19.

As pequenas e médias empresas brasileiras sempre precisaram de crédito porque elas rodam no vermelho, têm resultados deficitários e isso não vem de hoje. Uma prova disso é o número de empresas nos cadastros restritivos do SERASA que ultrapassa a marca de 5,3 milhões. Agentes financeiros têm dificuldade em dar crédito para empresas porque os prêmios de risco, na maioria das operações, é impagável. Os modelos analíticos que sustentam as decisões de crédito dessas instituições sempre indicam fortes tendências à inadimplência.

A essência do crédito para empresa vem da premissa de que se ela tiver recursos para investir na melhoria da sua estrutura, seja pela compra de insumos, modernização de processos, contratações, etc, aumentará a sua eficiência, melhorará os seus resultados financeiros e parte deles será destinado para o pagamento do valor tomado acrescido dos juros cobrados no período. Mas o empresário brasileiro, de fato, tem procurado crédito para cobrir furo de caixa.

Contudo, as discussões atuais sobre crédito para pequenas e médias empresas no Brasil têm “tapado esse sol com a peneira” e ignorado uma realidade que há muito é vigente. Empresas que operam no vermelho e tomam crédito apenas para cobrir o déficit de caixa continuarão com saldo negativo e terão o agravante de mais uma parcela para pagar entre as contas do mês.

Quando isso acontece, em geral, existe a tentativa do gestor de manter, a qualquer custo, a sua operação por meio da manutenção da dívida, seja via renegociações ou pagamentos de juros adicionais. O resultado disso é que os bilhões de recursos liberados pelos programas emergenciais lentamente vão deixando os meios de produção e caminhando para os braços do mercado de capitais em forma de juros e mora. Sim, é alarmante.

Não se pode sustentar, com isso, que não se deve dar crédito para empresas, muito pelo contrário. O ponto é: crédito para pequenas e médias empresas sem reformas e iniciativas estruturais é postergar o mal de hoje para outro mal bem maior no futuro, com a cobrança de juros e correções monetárias.

Os atores estruturais ou conjunturais não atuam sozinhos nesse cenário. A falta de preparo do empresário contribui, e muito, para a formação desse quadro de grande instabilidade. Tentar analisar a saúde financeira de empresa somente pela visão de caixa, ignorar custos e despesas indiretas, retrabalhos, desconhecimento dos passivos fiscais, contábeis e trabalhistas, não conhecer o ponto de equilíbrio financeiro do negócio e não saber formar um preço de venda eficaz são alguns pontos que grifam o despreparo de muitos empresários e que só fazem agravar essa situação. Assim como toda a discussão sobre temas complexos da economia e da sociedade, parte ou toda a solução recai sobre o tema educação.

Assim, temos que o crédito para empresas sem o suporte de outras ações de caráter estrutural tem efeito analgésico e não duram muito. Falar de salvação de empresas abordando apenas o fundamento da manutenção do caixa é tão somente retardar as temidas consequências da falta de recursos para a produção e desemprego.

Não existe salvação de lavoura com um único remédio. Uma lavoura saudável e produtiva requer preparação do solo, aplicação de boas práticas e, por que não, uma boa pitada de sorte.

*Elber Laranja, cofundador da Antecipa Fácil

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.