O crash da educação brasileira

O crash da educação brasileira

Esther Cristina Pereira*

21 de dezembro de 2020 | 08h00

Esther Cristina Pereira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quanto tempo levaremos para superar a ausência educacional presencial que tivemos – e continuamos tendo – durante a pandemia? Essa é uma questão que está pipocando nas mentes de muitos que trabalham no setor. Se tem algo que a pandemia de Covid-19 trouxe que é inegável foi a virtualização das relações. Encontros com amigos e reuniões de trabalho tiveram que ser adaptadas para a modalidade remota. Na educação isso não foi diferente – e até se extrapolou no Brasil.

Quando analisamos a situação de outros países, não é difícil chegar à conclusão de que talvez nenhuma outra nação tenha penalizado a educação tanto quanto nós. Na Europa, por exemplo, mesmo com o registro de aumento de casos da doença a partir de setembro, as escolas foram poupadas de novos lockdown. Para tanto, foram tomadas precauções extras, como a necessidade do uso de máscara e a ventilação regular das salas de aula. Resultado: o número de casos diários de Covid-19 no continente vem diminuindo, graças às outras medidas de isolamento, sem a necessidade de dispensar as aulas.

“Não podemos e não permitiremos que o futuro de nossos filhos e jovens seja outra vítima desta doença. Eles precisam da educação”, afirmou o primeiro-ministro irlandês, Micheal Martin, no fim de outubro, em discurso nacional sobre a decisão do país de não fechar as escolas novamente.

Enquanto isso, por aqui, os estudantes estão afastados das salas de aula desde março, e o ensino remoto foi autorizado até o fim de 2021! A quem será que interessa essa discrepância entre o Brasil e os demais países? Essa poderia ser uma pergunta retórica, mas sabemos muito bem a quem realmente interessa uma sociedade ignorante, sem opinião.

Não hesito em dizer que se essa situação persistir, se a educação continuar de lado no próximo ano, nossa sociedade será afetada por, pelo menos, duas décadas. No futuro, veremos uma sociedade, justamente a sociedade que temo, com as habilidades sociais extremamente prejudicadas. Não estamos dando chance, hoje, para a atual geração se desenvolver, para que nossas crianças e jovens aprendam com os desafios diários do convívio pessoal, para que possam conhecer diferentes pessoas, histórias e culturas. O ser humano é feito em grande parte disso.

As crianças brasileiras sofrem com sobrepeso, estão mais ansiosas do que nunca e podemos até dizer que estão viciadas em celulares e jogos eletrônicos. Além disso, estão crescendo somente com as referências do seu próprio centro familiar, o que pode prejudicar a formação da personalidade.

Obviamente a educação no Brasil sempre foi uma questão complexa, afinal, somos um país de dimensão continental. São inúmeras variáveis que precisam ser avaliadas, como a qualidade de ensino nas diferentes regiões e as diferenças entre os ensinos público e privado. Mas isso não pode ser motivo para adiar e limitar discussões sobre o tema. Não podemos nos esquecer, nem por um minuto, que estamos falando sobre o futuro do país.

*Esther Cristina Pereira, psicopedagoga e diretora da Escola Atuação

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