O copo meio cheio

O copo meio cheio

Eduardo Kolmar*

05 de julho de 2020 | 03h00

Eduardo Kolmar. FOTO: DIVULGAÇÃO

Passados alguns meses desde o início do ciclo pandêmico que vivemos, certamente muitas reflexões passaram pela cabeça de todos. Com um cenário completamente atípico, as dificuldades enfrentadas pela população do mundo demonstraram a necessidade de mudanças drásticas em nosso comportamento e isso não é diferente no setor de saúde.

Já era sabido e consabido que nosso sistema público de saúde estava colapsado, não obstante o esforço e a qualidade de todos os bravos profissionais que atuam no segmento. Aliás, ressalte-se aqui um enorme agradecimento pelo hercúleo esforço e dedicação que esses profissionais demonstram diariamente no combate a essa pandemia.

Antes de qualquer pandemia, entretanto, já era comum as manchetes dos principais veículos de comunicação estampando a caótica situação da saúde pública. Também já sabíamos da necessidade de transformação da Saúde Suplementar. A Saúde privada precisava de mudanças! Afinal, todos os stakeholders estavam insatisfeitos. Empresas com custos elevados e reajustes acima dos orçamentos, seguradoras com sinistralidades cada vez mais altas e margens mais apertadas, consultorias acrescentando cada vez mais serviços e tecnologias com remunerações cada vez menores. O setor precisava de mudanças! E elas sempre acontecem no amor ou na dor. Vieram pela dor…

Mas antes das soluções teremos alguns obstáculos a superar. As empresas tiveram uma difícil decisão: como manter os gastos do plano de saúde – um dos maiores da empresa –  se a receita decorrente da sua atividade reduziu drasticamente? E mais. Como cortar essa despesa no momento em que mais se precisa desse benefício?

A partir daí surgiram as soluções e as oportunidades. Primeiro entendemos que muitos dos procedimentos eletivos e consultas em pronto socorro são desnecessários. Combatemos o desperdício e a fraude. Tecnologia e a inovação finalmente chegaram a todos por meio da Telemedicina, cuja regulamentação aguardava há tempos a enorme burocracia de nosso país.

Com alta resolutividade para os procedimentos de baixa complexidade, acredito que essa seja uma das mudanças objetivas mais significativas da pandemia. Haverá uma redução das frequências em pronto socorro e, consequentemente, uma redução nos custos das consultas eletivas. O conforto buscado na figura física dos médicos nas emergências de hospitais, muitas vezes será suprido pela conversa na tela do celular com o mesmo profissional e o mais importante é que conseguiremos o acesso a todos os beneficiários que muitas vezes ficam “embaixo do radar” das utilizações e dos mapeamentos médicos.

A saúde mental também foi um grande foco dessa pandemia. Trabalhar no modelo home office exigiu uma disciplina anteriormente desconhecida pela maioria. Isolamento social, incerteza sobre o futuro na empresa e notícias que só transmitem o caos. Com este conjunto de situações não era difícil de imaginar o impacto que geraria na saúde mental de todos. Por isso foram fundamentais as ações direcionadas para este problema com mobilização de psicólogos e psiquiatras no atendimento às pessoas.

Como não acredito em solução única, todas as medidas têm que ser adotadas com múltiplas ações complementares. Apenas como exemplos, podemos mencionar ações eficazes que foram adotadas durante a pandemia de forma conjunta: desenvolvimento de protocolos de contenção para apoiar a área médica da empresa a conduzir casos suspeitos e confirmados;

classificação de risco de contaminação dos colaboradores das empresas; soluções para mapeamento de risco de contaminação dos colaboradores em atividade; gerenciamento do grupo de risco com o RH apoiando na conduta clínica em casos mais graves; testes e material de orientação sobre a doença.

Precisamos entender que vivemos em um mutualismo. A utilização indevida do benefício por qualquer um de nós acarretará um aumento de custo para todos. Não importa se o empregador é a empresa A ou B. Não importa se seu seguro é com a Seguradora A ou com a Operadora B. Os reflexos da utilização indevida e inconsciente impactarão no aumento da sinistralidade. O aumento da sinistralidade refletirá no reajuste do prêmio, que afetará o resultado da empresa, que por sua vez poderá resultar no desemprego. Esse é o ciclo que precisamos nos esforçar para divulgar!

Preferi ser otimista em minha vida e acredito que todos os momentos de dificuldades geram oportunidades positivas. A pandemia nos fez enxergar que somos iguais, independente de cor, raça, credo, religião, lutamos por um mesmo objetivo. No setor de saúde, ficou claro que precisamos de mudança, que precisamos nos cuidar, ter consciência em relação aos gastos desnecessários e que precisamos nos prevenir! No fim do dia, a palavra-chave é PREVENÇÃO. Saúde é prevenir e a covid, na sua forma mais cruel, nos mostrou o caminho. Eis o tal do COPO MEIO CHEIO!

*Eduardo Kolmar é VP de Benefícios da THB Brasil

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