O conflito russo-ucraniano como metáfora

O conflito russo-ucraniano como metáfora

Leandro Consentino*

01 de março de 2022 | 18h35

Kiev. FOTO: SERGEY DOLZHENKO/EFE

Um conflito bélico, apesar de toda a barbárie inscrita em suas ações, traz sempre importantes lições para os observadores e, como segundo Clausewitz, a guerra seria a a continuação da política por outros meios, cabe examinar o presente conflito que opõem a Rússia e a Ucrânia à luz desses ensinamentos. A questão preliminar a ser enfrentada sobre o atual conflito diz respeito às razões que levaram às hostilidades. Como toda questão complexa, dificilmente conseguiremos reduzi-la a uma única causa, mas precisamos examinar uma série de fatores que concorrem para o confronto.

O primeiro deles está no próprio equilíbrio de poder entre as nações e no temor que a Rússia sempre nutriu – e que se agravou com o fim da União Soviética – de que as potências ocidentais ameaçassem seu território. Diante dessa questão estratégica, uma adesão da vizinha Ucrânia, cujo nome quer dizer literalmente “fronteira”, a acordos com tais potências, preocupa sobremaneira o Kremlin e o força a buscar a ocupação militar e o estabelecimento de um governo-fantoche naquele país.

Ocorre que, como bem apontou o historiador israelense Yuval Harari, o povo ucraniano já deu o recado de que não irá se submeter a Moscou, ainda que a vitória militar seja alcançada pelos russos. Nesse sentido, a ideia de Putin de rechaçar o sentimento nacional daquele país já nasceu morta e a guerra forjará – com sangue, suor e lágrimas, como disse o velho Churchill – mais um mito de resistência dos ucranianos.

Além disso, há a questão ligada aos valores, notadamente aqueles da democracia liberal que, com a vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial e sobre o comunismo na Guerra Fria, parecia triunfar como a grande alternativa para além das fronteiras do Ocidente. Este modelo de sociedade, contudo, assusta os velhos autocratas e os novos demagogos: eis a estranha convergência entre Xi Jinping, Vladmir Putin, Donald Trump e Viktor Orbán, além da sinergia em terras brasileiras de uma esquerda mofada pelo anti-americanismo e uma direita fundada no saudosismo da ditadura
militar.

Diante dessas questões, é interessante ver que o conflito russo-ucraniano, que nos parece tão distante, transformou-se numa espécie de metáfora para compreender a própria dinâmica do ocaso de uma liderança que, encurralada em seus próprios devaneios de poder, acaba por comprometer a vida de milhões de pessoas. Se a dinâmica do conflito desgastar e isolar Putin, suas ações são imprevisíveis, assim como pode ocorrer em outros países, inclusive o nosso, em caso de derrota nas urnas.

O fantasma do ataque ao Capitólio dos Estados Unidos da América por apoiadores de Trump inconformado com sua derrota legítima nas urnas rememora o quanto o iliberalismo tornou-se uma força motriz dos processos políticos atuais e a investida de Putin sobre um país soberano e com anseios de liberdade dá a exata medida do que podemos esperar em nossa própria guerra particular.

É preciso seguir o exemplo dos ucranianos e estar pronto para defender as instituições democráticas de nosso país de quaisquer investidas que se ergam contra elas, sejam ameaças vindas da direita ou da esquerda. Nossa democracia é praticamente tão jovem quanto a moderna independência do estado ucraniano e a luta para mantê-la não pode ser menosprezada. Liberdade, como se sabe, é o bem mais caro ao ser humano e, como já foi dito, compara-se ao oxigênio: sua ausência só é percebida quando já estamos sufocados.

*Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper

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