O compliance estratégico depende das pessoas

O compliance estratégico depende das pessoas

Luiz Felipe Seabra*

17 de outubro de 2020 | 09h30

Luiz Felipe Seabra. FOTO: DIVULGAÇÃO

Houve um tempo em que os executivos encaravam a área de Compliance apenas como um centro de custos, origem de uma burocracia engessadora das ações empresariais. Talvez ainda haja tal pensamento aqui ou ali, mas esse grupo tem se tornado, felizmente, cada vez menor.

É crescente a compreensão do Compliance como ativo estratégico empresarial, essencial na indução de negócios e na geração de receitas. Extensas diligências têm seu lugar como prévias condicionantes para a alocação de capital e realização de aportes de financiadores e investidores institucionais.

Some-se a isso, autoridades cada vez mais atuantes, multas e sanções que trazem impactos significativos para a perpetuação das empresas e para a reputação de pessoas físicas e jurídicas.

Na árdua tarefa de conquistar novos mercados e clientes em uma economia instável, tem sido extremamente comum responder detalhados questionários de avaliação, com a exibição de evidências, além de apresentar formalmente a estrutura da área de Compliance e o funcionamento do sistema de gestão com todo o regramento envolvido.

Por essa razão, o investimento destinado à implantação de uma área de conformidade nas empresas precisa ser traduzido e comunicado com muita precisão a todos os colaboradores. É um investimento que vai além do custo de estruturação do sistema; envolve desde o tempo despendido pelos executivos e demais colaboradores nas entrevistas iniciais sobre as principais características do negócio e da operação para a elaboração e atualização da matriz de riscos, passa por fazer refletir em códigos e políticas a realidade revelada no âmbito de determinada empresa e segmento, e culmina com a realização de treinamentos periódicos das equipes quanto às regras do jogo.

Acrescente-se, ainda, o desafio de desenhar e implementar os processos internos de monitoramento, controle e auditoria, além da implantação de um setor de denúncias e investigações com todas as salvaguardas exigidas em lei.

Portanto, deve ser explícita a todos a necessidade de se cumprir, nos prazos devidos, requisitos previstos em códigos e políticas que, por seu turno, alimentam sistemas auxiliares e geram indicadores de gestão com o objetivo de mensurar o compromisso de toda a empresa com condutas íntegras.

São indicadores que para existir dependem da ação desde o presidente, ao fazer registro de reuniões com agentes públicos ou privados, passando pelo comprador da empresa, na due diligence e contratação de fornecedores, até a ampla gama de colaboradores, que devem participar dos treinamentos programados, declarar eventuais conflitos de interesse ou, ainda, acionar o canal de denúncias da empresa para auxiliar na prevenção e tratamento de fraudes e outros ilícitos ou de condutas comportamentais nocivas ao ambiente de trabalho.

O cumprimento das políticas de Compliance movimenta equipes multidisciplinares seja de natureza corporativa, seja de natureza operacional. Todos os colaboradores precisam entender o conteúdo dessas políticas e a importância de observá-las na medida em que o seu descumprimento pode interferir no processo de conquista de novos negócios e, consequentemente, impactar fatores como a geração de empregos e o resultado econômico-financeiro da própria empresa, dentre outros.

O real compromisso com um ambiente ético, íntegro, lastreado num sistema de gestão de Compliance comprovadamente eficaz, gera um processo de confiança interna e externa, contribuindo decisivamente para a captação de oportunidades comerciais e a perenidade dos negócios.

*Luiz Felipe Seabra, Chief Compliance Officer do Grupo Queiroz Galvão

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