O começo do fim: eleições e governo

Rodrigo Augusto Prando*

27 de outubro de 2018 | 10h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

No próximo domingo vivenciaremos o começo do fim do processo eleitoral. Será, também, o ocaso do Governo Temer e a gênese de um novo governo. Tivemos, em tudo, uma eleição atípica, diria, até, paradigmática. Há, analisando os dados, vantagem de Bolsonaro sobre Haddad. Contudo, os petistas apresentam esperança de que as curvas de intenção de votos possam se cruzar na madrugada de domingo com a subida de Haddad e o declínio de Bolsonaro. Tal cenário para ser mais distante, mas não impossível.

Nas últimas semanas, declarações do filho de Bolsonaro sobre fechar o STF com um “soldado e um cabo” trouxe à tona o repúdio de muitos políticos, juízes, intelectuais, etc. Soma-se a isso o fato da denúncia de que a campanha foi beneficiada com o disparo de mensagens via WhatsApp contra Haddad e pagas com suposto “caixa 2”, configurando ilicitude no pleito em voga. Ademais, mesmo com o General Mourão e Paulo Guedes devidamente silenciados, a campanha do PT insistiu em propaganda eleitoral com cenas de tortura ligando-as às falas do próprio Bolsonaro. Isso, no conjunto, abalou a ideia de uma vitória acachapante sobre o petista. Embora não queiram transparecer, os bolsonaristas estão apreensivos.

No campo dos petistas e da esquerda, embora também não queiram demonstrar, há sentimento de incredulidade numa vitória de Bolsonaro. Eles sabem que é muito, muito mais complicado uma virada, especialmente quando se analisa os candidatos que saíram vitoriosos no primeiro turno e que, no segundo, acabam ganhando a disputa.

Em sabatinas jornalísticas, Haddad tenta, sempre, mostrar-se mais ameno, tranquilo, mas o histórico do PT e de Lula não ajudam tanto. Houve críticas ao uso de fake news por parte de Bolsonaro, mas Haddad também acabou por divulgar fato inverídico sobre a tortura perpetrada pelo General Mourão contra um músico. Em afirmações neste segundo turno, por exemplo, o petista afirmou ser possível controlar o preço do gás de cozinha, dos atuais R$ 75 para, no máximo, R$ 49 – tais ideias trazem, rapidamente, à memória as ações do Governo Dilma de controle do preço da gasolina e da energia elétrica, cujos resultados foram péssimos à economia brasileira.

Os dois contendores foram se afirmando e recuando nesse segundo turno. Bolsonaro não aceitou participar de nenhum debate, pois não quis apresentar suas fragilidades diante de Haddad. Não ir aos debates não fez diferença alguma para seus apoiadores, que alegaram questões de segurança e desconforto causados pela cirurgia depois do atentado sofrido. Com isso, o ex-capitão resguardou-se e, no entanto, deu munição às críticas dos adversários de fugir do confronto direto de propostas e ideias. Bolsonaro não debateu mas manteve-se ativo nas redes sociais e selecionando as entrevistas concedidas.

Haddad, por sua vez, teve frustrada a tentativa de formar uma “frente democrática” com Ciro, Marina e até Fernando Henrique Cardoso. O PT que nunca apoiou nada além das vontades de Lula não conseguiu propagar essa outra narrativa dos “democratas contra Bolsonaro”. Os democratas existem, mas não querem estar ao lado dos petistas.

Outro episódio, separados no tempo e no espaço, foram os dois petardos críticos daqueles que foram chamados para ajudar: Cid Gomes e Mano Brown – o primeiro, chamou a militância de babacas ao gritarem o nome de Lula; o segundo, asseverou que o PT se distanciou o do povo e que a postura fanática e cega traz consequências nefastas ao partido.

Nos estertores dessa campanha, numa eleição assentada mais na rejeição, no medo e no ódio do que na qualidade dos candidatos, nas propostas de governo e nas ideias, o sentimento geral é de esgotamento. As relações sociais estão esgarçadas ou, mesmo, rompidas. No ambiente familiar, nas escolas e universidades, nas empresas, nas ruas, há todo o tipo de manifestação, mas, quase todas, independente do vitorioso, é de angústia com o futuro próximo.

Quem quer que seja o vitorioso deverá sair do palanque, do discurso agressivo, e fazer um chamamento à sociedade brasileira para amainar, serenar, os ânimos. Deverá, o novo presidente, deixar a retórica rasa e deverá incorporar a liturgia do cargo, a da Presidência da República. Ganhar a eleição é importante, todavia, é fundamental governar e compreender, essencialmente, o papel dos outros poderes (Legislativo e Judiciário) como freios ao Executivo, bem como as funções da mídia e a própria vigilância crítica dos cidadãos e da sociedade.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia pela Unesp

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