O Código do Silêncio

Redação

07 Abril 2015 | 12h48

Por Jorge Pontes*

Parece apenas um assunto de interesse interno da Policia Federal, mas não é. Trata-se de uma notícia muito ruim para a sociedade: A PF baixou, nessa última semana, um código de ética que já está sendo apelidado nas redes sociais de AI 5 da Polícia.

A novidade foi publicada no Boletim de Serviço do órgão, em edição do dia 30 de Março de 2015, no auge do calor da Operação Lava Jato, a investigação que descortinou um enorme esquema de corrupção na Petrobrás, e justamente na fase da operação em que a Polícia quase que semanalmente desvenda detalhes escabrosos envolvendo políticos e empresários poderosos.

O código consubstancia-se em expediente que, grosso modo, exige a todos os membros do departamento um extenso rol de deveres e obrigações, tendo como grande novidade a proibição de “conceder entrevista à imprensa, em desacordo com os normativos internos”.

A bem da verdade, veio na melhor hora, pois engrossa o caldo, ratifica e justifica o movimento, já encampado pelas “ruas”, da Autonomia para a PF Já.

Aliás, norteado em que código de ética o Ministro da Justiça poderia – sem registro em agenda – reunir-se com advogados das empreiteiras investigadas e sugerir que não assinem acordos de delação premiada ? Onde estaria a ética se um absurdo desses tivesse porventura ocorrido?

Mas vamos ser sensatos, o tal código de ética até traz alguns pontos corretos. Entretanto, o momento em que foi baixado é terrível. Não se disfarça absolutamente mais nada nesse governo. Eles editaram um código com aspectos sensatos e com eles embutiram um cala-boca geral.

Os pontos lúcidos, e óbvios, do código de ética, foram tão somente hospedeiros de uma mordaça para as autoridades policiais. Percebam que, quando se clama, à boca miúda, por coragem, nos corredores da PF, de norte a sul do país, acerta-se na mosca, pois esse código de ética é na verdade uma régua que só faz nivelar o departamento, a fórceps, por intermédio do medo que emana das altas esferas.

Contudo, para fazer justiça a um grupo de colegas policiais federais, cabe registrar, no que tange ao Departamento de Polícia Federal, que a capital do Brasil moveu-se para Curitiba já faz 12 meses; para desespero de Brasília, diga-se de passagem.

E já que quem manda tem receios de se posicionar, impõe um código que estabelece que todos devam ser “solidários” no receio e no acanhamento que hoje impera na Polícia Federal. É o preá intimidando o chefe dos perdigueiros.

*Jorge Barbosa Pontes é delegado de Polícia Federal e foi diretor da Interpol.