O céu quer os melhores

O céu quer os melhores

José Renato Nalini*

18 de março de 2021 | 10h30

Antonio Carlos Malheiros. FOTO: EPITACIO PESSOA/ESTADÃO

É o que nos resta pensar, quando se despede da vida Antonio Carlos Malheiros (2.2.1951/17.3.2021). Os necrológios formais contemplarão sua carreira, primeiro na advocacia, de 1973 a 1994 e, em seguida, no Poder Judiciário de São Paulo. Foi juiz do extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil e depois Desembargador do Tribunal de Justiça, membro do Colendo Órgão Especial.

Não é só a Magistratura quem perde. É também o Magistério, pois Malheiros sempre foi professor da PUC-SP, onde exercia a Pró-Reitoria de Cultura e Relações Comunitárias era uma referência em direitos humanos.

O que merece reflexão é o compromisso desse exemplar humano de primeiríssima qualidade, com a causa dos desvalidos. Ele sempre se posicionou ao lado considerado mais fraco. Sua opção era pelos desfavorecidos. A sua multifacetada atividade incluía assistência caridosa e carinhosa aos moradores de rua. Conhecia muitos deles. Encarregou-se, pessoalmente, de várias hipóteses de recuperação quando a causa desse flagelo fosse o vício, principalmente a droga. Orgulhava-se de seus pupilos que retomavam o curso considerado “normal” da existência, aceitando trabalho, comportamento adequado e ânimo para enfrentar as vicissitudes.

Percorria os espaços ocupados por esses habitantes do submundo, que a maioria de nós considera invisíveis. Ajoelhava-se e conversava com eles. Exercício concreto de algo que parece impossível: a lei de ouro do cristianismo, o “amai-vos uns aos outros”.

Outro de seus empenhos era alegrar as crianças enfermas, principalmente aquelas que contraíam câncer. Vestia-se de palhaço e regularmente as alegrava, tentando amenizar a dor daquelas mentes infantis que nunca chegariam a compreender o motivo pelo qual foram escolhidas para padecer. Na figura do “Palhaço Totó”, contava estórias e devolvia o sorriso àqueles pequeninos seres carequinhas, às voltas com a terrível quimioterapia, a radioterapia e suas sequelas.

Só isso bastaria para torná-lo um ser diferenciado. Sensível e humano. Assim como era a sua Justiça. Assimilou o mandamento de que Justiça sem amor pode ser a mais escancarada injustiça.

Quantas vezes não ficou sozinho, em julgamentos emblemáticos, porque não conseguia ater-se à frieza da norma, se o resultado viesse a tornar o aflito ainda mais infeliz. Defendia sua concepção do justo com veemência, mas nunca mostrou ressentimento quando colegas de trabalho e até amigos próximos o abandonassem por considerarem suas teses insólitas dentro do que é normalmente esperado.

Era incansável no atendimento de todas as pessoas que o procuravam. Os injustiçados nele viam refúgio certo. Sabiam que ele os atenderia. Consolava, injetava ânimo, devolvia esperança.

Aceitava todos os convites para palestras, fossem estas destinadas a milhares, ou a poucas pessoas. Envolvia-se com questões aparentemente menores, desde que ali residisse uma fagulha daquilo que era o seu lema existencial: reequilibrar os pratos de uma balança simbólica, sempre a pender em desfavor dos mais carentes.

Antonio Carlos Malheiros. FOTO: EPITACIO PESSOA/ESTADÃO

Amigo leal e solidário, era sempre o primeiro a se interessar por aqueles que encaravam as intempéries das quais não nos livramos. Assíduo nas visitas aos enfermos, acompanhava a recuperação e telefonava todos os dias indagando sobre o tratamento e infundindo ânimo. Sou testemunha disso e beneficiário de sua benevolência.

Malheiros era o elemento da mais autêntica e cristã caridade na Justiça bandeirante. Verdadeiro “santo” do século 21. Testemunho de que é possível ser santo nesta era sombria em que os valores declinam e a perversa mediocridade ocupa espaço cada momento maior e mais alarmante.

Na terra desmemoriada em que prolifera a tática das homenagens, prestadas a cargos, a funções, não às pessoas, seria excepcional que ele fosse preservado na memória coletiva como paradigma de virtude.

É possível falar em virtude no Brasil de 2021?

Recorro a Thomas Merton para me ajudar: “Esta palavra, virtude, que destino não tivera ela nestes últimos trezentos anos! O fato de por toda parte a bem dizer ter sido desprezada e ridicularizada, principalmente nos países latinos, é um testemunho da evidência de que ela sofreu principalmente pela mutilação provocada pelos puritanos. Nos nossos dias tal palavra deixa nos lábios de cínicos alunos de altas escolas uma espécie de ressaibo petulante, e é explorada nos teatros pela possibilidade que oferece a sarcasmos chulos e fermentados. Toda gente ridiculariza a virtude que passou a ter agora, como significação primária, uma afetação de fingimento praticado por hipócritas e frustrados”.

Antonio Carlos Malheiros era autêntico e bem-sucedido. Virtuoso porque se habituou à constante, fervorosa e honesta prática do bem.

Já está fazendo muita falta e ainda mais se sentirá quando se avaliar a dimensão da perda. Infelizmente, não há refil para homens como Antonio Carlos Malheiros.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.