O cavalo passa arreado

O cavalo passa arreado

José Renato Nalini*

09 de maio de 2022 | 14h30

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Ditados populares refletem a sabedoria tradicional de um povo. Os brasileiros costumavam dizer “não deixe passar o cavalo arreado”, para traduzir a conveniência de se valer das boas oportunidades. Há inclusive um episódio histórico análogo a esse costume. Dom João VI, ao deixar o Brasil para retornar a Portugal, teria dito ao infante Pedro, que depois se tornaria o nosso primeiro Imperador: “apodere-se da coroa, antes que um aventureiro lance mão dela”. E foi o que o impetuoso Pedro I fez, como garantia de um país continental que não se esfacelou como as inúmeras repúblicas da colonização espanhola.

Pois bem. O que vale para as pessoas, vale para as nações. O Brasil tem oportunidade ímpar de recuperar a sua condição de “promissora potência verde” e jogar ao lixo o título vergonhoso de “pária ambiental”, se fizer valer os preceitos da sustentabilidade.

Partiu da iniciativa privada, sempre mais atenta e cuidadosa do que os governos, alavancar a agenda ESG – preocupação conciliada e simultânea entre o zelo pela natureza, redução das desigualdades sociais e governança inteligente. Aos poucos, mais lentamente do que seria necessário, a sociedade se compenetra de que é preciso estar cautelosa em relação ao futuro da Terra. Alguns consumidores mais qualificados escolhem suas marcas dentre aquelas que respeitam o ambiente.

É óbvio que essa consciência também decorre da intensificação de consequências trágicas do maltrato à natureza. Mas o percurso avança. Tanto que a primeira edição do “ESG Consumer Index”, um relatório reputacional das empresas quanto à sua adesão e prática ESG, relacionou cento e sessenta marcas. Dois mil participantes participaram da pesquisa e o resultado foi que 42% da população acredita que as práticas ambientais de determinada marca sejam importantes na hora de consumir.

Esse o maior percentual da pesquisa, pois 32% focaram o social e 25% a governança, traduzida como ética e honestidade nos negócios.

O caminho da comunicação a respeito do que a empresa faz para melhorar o mundo, além de buscar o lucro, algo legítimo no capitalismo, é uma comunicação transparente e contínua. A melhor avaliação nessa pesquisa foi obtida pela Natura, embora também tenham aparecido a Boticário e a Avon. Aos poucos, até bancos passam a se comunicar com a clientela, para mostrar que suas práticas são reais, não representam o “greenwhashing”, a hipocrisia de adotar uma bandeira, mas praticar exatamente o contrário.

A sustentabilidade é preocupação permanente dos governos sérios nos países mais adiantados. Como a máquina governamental é imensa e atua em ritmo acelerado de crescimento vegetativo, existem alguns espaços ocupados por pessoas conscientes da responsabilidade ecológica.

Assim é que o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social possui uma diretoria de Crédito Produtivo e Socioambiental, que conta com uma carteira de três bilhões de dólares captados com órgãos multilaterais internacionais e outros três bilhões de dólares ainda em negociação. Consta que o BNDES seja um dos três maiores financiadores de energia renovável no planeta.

O Brasil foi considerado “pária ambiental” pelo desmatamento na Amazônia. Até o momento, as iniciativas de tutela desse imprescindível patrimônio universal têm sido adotados pela iniciativa privada. Mas o BNDES lançou um match funding, pelo qual ele doa um real e as empresas mais um real, para um programa chamado “Salvando Vidas”. Outro projeto em que o BNDES atua é o “Floresta Viva”, que conta com quinhentos milhões de reais, metade do banco e metade de parceiros como Petrobrás, Vale, Itaipu, Heineken e Philip Morris. Quantia ainda pequena, diante da potencialidade econômico-financeira de seus partícipes.

Nada obstante, o foco é a preservação dos biomas que a Constituição reconheceu: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga. A intenção é reflorestar 33 mil hectares, o que significa gerar captura de 9 milhões de toneladas de carbono. Simultaneamente, o BNDES lançou um projeto de captação de carbono, publicando edital para que os interessados apresentem seus projetos.

O mundo civilizado tem preocupação que se intensifica e se amplia a cada instante quanto à descarbonização do planeta. O mercado voluntário de carbono já conta com mais de cinco mil empresas, que têm suas metas de descarbonização. Para isso, urge reflorestar. Só de pastagens abandonadas, o Brasil dispõe de um incalculável tesouro para o replantio de árvores nativas.

O cavalo está arreado. Incumbe à iniciativa privada conclamar o mundo para reflorestar o Brasil. É a opção mais barata. E consta existir setenta trilhões de dólares disponíveis para isso. O que estamos esperando?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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