O caso Ford – uma análise um pouco mais completa

O caso Ford – uma análise um pouco mais completa

Marcos Corrêa*

15 de janeiro de 2021 | 12h05

Marcos Corrêa. FOTO: DIVULGAÇÃO

O assunto da semana é o anúncio realizado pela FORD, informando que encerrará suas atividades fabris no Brasil, ou seja, a partir do ano que vem, a montadora norte americana que chegou por aqui em 1919, pretende não ter mais plantas industriais e linhas de montagem funcionando em nosso país.

Muito está sendo dito sobre isso, mas penso que a análise desse caso precisa ser um pouco mais profunda.

Comecemos com uma constatação: a saída da FORD não é um evento, mas um processo que já estava em movimento a algum tempo. Lembro que em 2019 a mesma FORD fechou sua fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo, fábrica essa que também produzia o modelo de carro popular FIESTA.

Bom, mas vamos aos fatos:

  • Mudanças rápidas e decisivas no setor automotivo: O setor automotivo está sendo redesenhado no mundo todo. De um lado, uma pressão cada vez maior por veículos movidos por combustíveis limpos e renováveis, como os carros elétricos. De outro, uma sociedade que cada dia mais enxerga os veículos como um serviço para ser utilizado e não como um produto para ser “estocado”.
  • Encolhimento do mercado nacional: Também aqui o negócio de veículos está se reinventando. Várias e sucessivas crises econômicas somadas a mudança do comportamento do consumidor, derrubaram o volume de veículos vendidos no Brasil. Para se ter ideia do tamanho da queda, no ano de 2012 o país vendeu 3,8 milhões de unidades de veículos novos; já no ano de 2019, as vendas foram de pouco mais de 2,7 milhões. Uma queda de 30% em 7 anos. Se olharmos em termos de faturamento, o estrago é ainda maior. O faturamento líquido da indústria automotiva, que foi de mais de 93 bilhões de dólares em 2011, fechou 2018 em pouco mais de 54 bilhões. Uma queda de 42% em 7 anos.
  • Mudanças estratégicas na empresa: Com todo esse cenário no mundo e no Brasil, a empresa não ficaria parada. Assim, a empresa está se movendo em direção a produção de veículos elétricos e de energia limpa, ao mesmo tempo que adequa sua produção a nova demanda existente e enxuga o número de modelos, fábricas, operações…Também nos EUA e na Europa a empresa fechou fábricas e encerrou a circulação de alguns modelos, sobretudo os populares.
  • Manutenção da operação na Argentina: Na construção de suas fábricas, a FORD dividiu na América do Sul a produção de seus veículos, ficando para o Brasil a produção de veículos populares (mais vendidos aqui dentro) e a Argentina os modelos maiores, como as Picapes e SUV (FORD Ranger, por exemplo). Nos últimos anos, os carros maiores têm ganhado a preferência do público e conseguem entregar margens melhores. Logo, nesse processo de transição, a FORD obviamente escolheu manter a produção dos carros maiores e finalizar a produção dos carros populares. Some-se isso ao custo de produção mais baixo na Argentina e a possibilidade de continuar exportando para o Brasil, já que por acordo de livre comércio, os impostos são praticamente zero. Ou seja, a Argentina não foi mexida porque produz o “filé”, tem custo mais baixo de produção e pode abastecer o mercado brasileiro sem maiores custos.
  • Ambiente de Negócios no Brasil: Por fim, é claro que não poderíamos deixar de citar o manicômio que é o ambiente de negócios do Brasil, sobretudo nas questões tributárias. Cobra-se muitos impostos e de uma maneira desorganizada, paradoxalmente, para manter empresas desse tipo no país, ao longo dos anos foram oferecidos subsídios que, por sua vez, resolviam a situação do momento, mas piorava a situação ao empurrar o problema.

Em síntese, a saída da FORD do país, com o encerramento de suas atividades fabris, é parte de um movimento global de reestruturação da companhia frente às mudanças que se impõem nesse setor. No entanto, o ambiente de negócios brasileiro (confuso, caro e improdutivo) torna o país vulnerável, podendo se deparar com situações desse tipo frequentemente.

É necessário que melhoremos nosso ambiente de negócios, simplificando e barateando o custo de produção nacional, bem como, consigamos desenvolver e atrair indústrias alinhadas às novas tecnologias e as novas demandas do mundo, para substituirmos empresas de um mundo que, aos poucos (mas rapidamente) se despede.

Boa sorte, FORD!

Boa sorte, Brasil!

*Marcos Aurélio Corrêa dos Santos é coordenador do Curso de Administração e do Centro de Empreendedorismo do UNISAL – Centro Universitário Salesiano de São Paulo. É membro do CRA-SP (Conselho Regional de Administração de São Paulo), Mestre em Administração e consultor empresarial

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