O cantor, o jogador e o negociador

O cantor, o jogador e o negociador

Luiz Henrique Lima*

01 de novembro de 2021 | 08h00

Luiz Henrique Lima. FOTO: DIVULGAÇÃO

Roberto Carlos, o cantor, marcou história na música brasileira desde a década de 60. Das inúmeras canções que compôs ou interpretou, muitas até hoje fazem sucesso e são lembradas em serenatas e serestas. Não é o meu cantor favorito – posto que sempre foi de Milton Nascimento – mas sou apreciador de várias composições suas.

Uma das que marcou época é “Sua estupidez”, de 1969, posteriormente gravada por Gal Costa e Alcione, entre outros grandes intérpretes. Um episódio recente me fez recordar de alguns versos dessa canção:

“Quantas vezes eu tentei falar

Que no mundo não há mais lugar

Pra quem toma decisões na vida sem pensar.”

O fato foi uma manifestação de um consagrado atleta profissional de vôlei, muitas vezes medalhista com a seleção brasileira. Referido cidadão, pessoa de razoável influência em parcela da sociedade, em virtude de sua proeminência no esporte, utilizou suas redes sociais para veicular mensagens de ostensivo conteúdo homofóbico. A virulência empregada ultrapassou sua audiência cativa de centenas de milhares de seguidores e impactou a opinião pública de modo geral.

Por ser de uma geração mais jovem que a de Roberto Carlos, talvez o jogador de vôlei não conheça a bela canção “Sua estupidez” e, se conhece, não se atentou para o aviso e falou, gravou, escreveu e postou “sem pensar”.

Só que, felizmente, “no mundo não há mais lugar” para atletas homofóbicos, ou racistas, ou preconceituosos de toda espécie, e as consequências dessas declarações foram catastróficas. O agora ex-jogador foi suspenso, multado, depois demitido de sua equipe e excluído da seleção brasileira, na qual um de seus ex-companheiros é homossexual.

No mundo não há mais lugar para tal tipo de comportamento porque cada vez menos se toleram os intolerantes. Há cada vez maior consciência que atos de violência verbal precedem, estimulam e favorecem atos de violência física e não podem ser ignorados, minimizados ou banalizados.

Tudo isso ocorreu na véspera da COP-26, a Conferência sobre as mudanças climáticas, em Glasgow, na qual ocorrerão decisivas negociações sobre medidas concretas de redução das emissões de gases do efeito-estufa, responsáveis pelo aquecimento global e as mudanças climáticas dele decorrentes. Sobre o tema, os alertas vêm sendo dados há quase tanto tempo que a música de Roberto Carlos, pelo menos desde a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, em 1972, em Estocolmo. No entanto, ainda há vozes negacionistas, tanto confrontando as evidências da ciência do clima, quanto abraçando os interesses de grupos econômicos baseados na extração predatória de combustíveis fósseis, no garimpo ilegal em áreas preservadas, no desflorestamento etc.

A COP-26 é uma oportunidade ímpar para que as nações assumam compromissos equitativos, factíveis, coordenados e imediatos de redução das emissões e de mitigação dos efeitos já em curso – e talvez última, porque o acúmulo de gazes na atmosfera se aproxima de um patamar de não-retorno das mudanças climáticas globais.

A música “Sua estupidez” de Roberto Carlos deveria constar na playlist de todos os negociadores da COP-26.

No mundo não há mais lugar para negacionistas das mudanças climáticas ou para quem não compreende a absoluta prioridade que a sustentabilidade ambiental deve ter numa estratégia nacional de desenvolvimento econômico e social. Se algum país não considerar isso e desentoar nas negociações, sofrerá consequências ainda mais graves que o atleta homofóbico.

O que se espera de cada negociador é que aprenda a lição do cantor e não reproduza a estupidez do jogador.

*Luiz Henrique Lima é auditor substituto de conselheiro do TCE-MT

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