O caminho da retomada

O caminho da retomada

Jeane Mike Tsutsui e Celso Francisco Hernandes Granato*

11 de agosto de 2020 | 06h00

Jeane Mike Tsutsui e Celso Francisco Hernandes Granato. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Em artigo recente, publicado no Financial Times, Martin Wolf considera estarmos em meio à maior recessão em tempos de paz dos últimos 150 anos. Não sabemos quando e como teremos mecanismos para controlar plenamente a pandemia, tais como a descoberta de vacina ou tratamento comprovadamente eficaz.

A combinação de diferentes estratégias vem sendo amplamente debatidas e empregadas em vários países. Dentre elas, a realização de testagem massiva, a identificação precoce de casos de COVID-19 associada a isolamento de contatos, medidas preventivas de distanciamento social e mapeamento populacional que permitam estimar taxas de infecção. O conhecimento médico e epidemiológico sobre esta nova doença avança a cada dia. Precisamos, neste contexto de incertezas sobre o momento adequado da retomada de atividades, aumentar nossa capacidade de aprendizado a fim de encontrar caminhos para nosso país. Vivemos uma devastadora desigualdade social e uma combinação de crises, de saúde e economia, cujos impactos serão marcantes no curto e médio prazo.

A definição de protocolos médicos e ambientais, que englobam o conhecimento acumulado até o momento sobre o novo coronavírus, tem sido realizada em vários países e tem ajudado os órgãos regulatórios a estabelecer diretrizes para um retorno seguro e gradual. Entretanto, adequar estas diretrizes para um determinado segmento ou área de atuação das companhias nem sempre é tarefa fácil, especialmente em se considerando a combinação de fatores que incluem avaliação de risco de cada indivíduo com o componente de exposição interpessoal. Adaptar novas ferramentas digitais com potencial de reduzir interações, mantendo uma boa experiência de serviço, será um desafio e, ao mesmo tempo, uma realidade a ser incorporada pelas diferentes indústrias no período pós-pandemia.

Pesquisas realizadas demonstram, por exemplo, que os esclarecimentos sobre protocolos de testagem para COVID-19 em funcionários prestadores de serviço de saúde, associados à implementação de práticas de sanitização nesses ambientes, adoção do distanciamento físico e utilização de equipamentos de proteção individual, contribuem para que os pacientes retornem ao atendimento médico. Os protocolos de saúde indicam testes para dois tipos de situações. Para o diagnóstico de infecção aguda, em casos de pessoas com sintomas ou que tenham tido contato com pessoas sintomáticas, são indicados os testes moleculares (PCR) ou de proteínas. Os testes sorológicos e os testes rápidos, por sua vez, são capazes de detectar a presença de anticorpos, indicando que o indivíduo já teve contato com o SARS-CoV-2. Existe uma conhecida variabilidade de desempenho dos testes rápidos disponíveis no mercado, podendo gerar resultados falso-positivos ou falso-negativos se não forem adequadamente avaliados. Os testes sorológicos que comprovadamente apresentam uma boa sensibilidade e especificidade são opções para ajudar a definir o retorno ao trabalho, pois informam se o indivíduo já teve ou não contato com o vírus, e para estabelecer estratégias de mitigação de riscos. Ainda não temos evidência na literatura científica que a presença de anticorpos confira imunidade definitiva para o novo coronavírus. Entretanto, em meio a uma situação de pandemia, torna-se importante aplicarmos os recursos disponíveis. O desejo de todos é que possamos retomar as atividades com a segurança de que medidas adequadas foram tomadas no sentido de minimizar possibilidade de contaminação.

As empresas têm buscado, ao longo dos anos, criar um ambiente de trabalho motivador e produtivo, sendo que para isso a confiança entre as equipes e suas lideranças é um fator fundamental. Neste momento de COVID-19, saúde e segurança tornaram-se prioridades. As pessoas que viveram períodos de distanciamento social ao longo dos últimos meses ainda se questionam sobre a efetividade de medidas aplicadas dado o grande número de informações, muitas delas contraditórias, que recebem todos os dias. Neste contexto, cabe às empresas não somente aplicar protocolos adequados que permitam, à luz do conhecimento atual, garantir a maior segurança aos seus funcionários e clientes, mas também comunicar de forma efetiva suas ações, assim como novas formas de interação, seja ela física ou virtual.

De acordo com Wolf, não sabemos como será o caminho da recuperação econômica. O que sabemos, ao certo, é que a aplicação de medidas que sigam normatização técnica de forma apropriada e acurada, associada a uma adequada comunicação, fortalecem a confiança no retorno ao trabalho.

*Jeane Mike Tsutsui, médica, professora livre-docente em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretora executiva de Negócios do Grupo Fleury

*Celso Francisco Hernandes Granato, médico, professor adjunto da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) e diretor Clínico do Grupo Fleury

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.