O brasileiro e a desilusão política

Alexandre Pereira da Rocha*

26 Agosto 2017 | 10h00

O brasileiro é um povo desiludido com a política. Em 2016, o Instituto Ipsos apontou que 79% dos brasileiros não se sente representado por partidos políticos. É triste. Por conta de vícios no sistema político, como excesso de corrupção, grande parte dos brasileiros não reconhece a virtude que é a política.

O desinteresse pela política gera o fenômeno do apolitismo, que conforme o filósofo francês Francis Wolff, é a recusa dos cidadãos, explícita ou implícita, em participar da vida da comunidade política e das escolhas que essa comunidade faz. Nesses termos, a política é demonizada e rotulada como meio impróprio para cidadãos honestos.

Com o escasso interesse cidadão pela política, ela se torna uma ilha da fantasia. Os personagens que aí habitam, governam para si e suas clientelas. Muitos carecem de popularidade, mas, como por um passe de mágica, são conduzidos aos postos de representantes. Essa é uma democracia sem povo e dirigida por uma plutocracia.

Apesar de toda a decepção dos brasileiros com a política, o abandono dela não é a solução. Na verdade, é a raiz de muitos males. Ora, quanto mais a política é deixada de lado pelos cidadãos, menos ela serve aos interesses públicos. Nas palavras do cientista social Marco Aurélio Nogueira, autor da obra As ruas e a democracia:

“Sem os cidadãos, no entanto, a representação soluça e termina sob monopólio dos partidos, que se tornam seus únicos protagonistas, ‘donos’ de suas regras e de seus resultados. Com isso, a política representativa converte-se em atividade de profissionais que não são ‘vistos’ pela sociedade e não se importam em trazê-la para o centro do palco, profissionais que pedem muito e dão pouco em troca”.

Essa prática não é política. Tem-se que, política só faz sentido quando os cidadãos agem em comunidade e buscam o melhor para esse espaço social. Isso não é coletivismo, nem supressão do individualismo, mas compreender que a política é um sítio de convivência social onde todos os cidadãos estão imersos, como sujeitos e objetos e são afetados direta ou indiretamente.

É oportuno recordar a lição da filósofa Hanna Arendt: “a política baseia-se na pluralidade dos homens”.

A política está entre os homens, é de alguém com os outros. Isso é imperativo nas sociedades plurais, com diversos interesses em jogo. Portanto, a política não pode ser exclusividade de castas, porém deve ser ambiente de convivência e comunicação de cidadãos diferentes em comunidade. Ademais, a política deveria interessar a todos, pois é dela que o status de cidadão ganha concretude.

Para os brasileiros, destarte, falta política. É na política que os brasileiros podem escolher, avaliar, criticar e reprovar seus representantes, bem como interferir na gestão da coisa pública. Isso não implica que os cidadãos devam fazer política ou se filiarem a partidos políticos. Contudo, na avaliação de Francis Wolff, é se comprometer com o público e encontrar meios que preencham a distância entre a comunidade e o poder.

Mas, em tempos de desilusão com a política, o discurso apolítico soa encantador. Todavia, isso é mais alienação. Note-se, é na vida política que a cidadania existe. É nela que os cidadãos alcançam justiça. É por meio dela que os brasileiros fortalecem a democracia e podem impedir que corruptos se instalem no poder público.

Ao fim, em vez de menos política, nós brasileiros deveríamos buscar mais política, porque só assim poderíamos ser agentes de transformação da realidade que nos cerca.

*Cientista Político. Doutor em Ciências Sociais – UNB

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