O Brasil sitiado pelas trevas

O Brasil sitiado pelas trevas

José Renato Nalini*

15 de junho de 2022 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Aproxima-se a data em que São Paulo deve celebrar os noventa anos da Revolução Constitucionalista de 1932. O 23 de maio anterior, com o sangue dos mártires Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, já antecipara a epopeia. Os paulistas não se acovardariam. E, realmente, não se acovardaram. Para reconduzir o Brasil à ordem democrática, não pouparam sangue e suor. Em vez das lágrimas, o sorriso confiante de quem sabe estar do lado certo da História.

Dentre tantas páginas gloriosas, das quais São Paulo deve se orgulhar para sempre, destaca-se a conclamação que Alcântara Machado fez aos estudantes de Piratininga, notadamente aos acadêmicos das Arcadas. Ele evoca os legendários ex-alunos e seus Mestres, mencionando Ramalho, Crispiniano, José Bonifácio o Moço, João Monteiro, Brasílio Machado, Pedro Lessa, João Mendes, Ruy, Joaquim Nabuco, Silveira Martins. Lembra os poetas Castro Alves e Fagundes Varella e exclama que o último dos Andradas saudara a Gabriel dos Santos, revolucionário de 1842, declamando: “Soldado da liberdade: não renegaste a bandeira nas horas de tempestade”.

Para sensibilizar os jovens, resgata a voz de Fagundes Varella: “Basta de humilhações! A terra de Cabral está cansada de ultrajes suportar. A seus clamores no seio das florestas ressuscite um mundo de guerreiros que não tema o troar dos canhões. Um povo ardente se levanta inspirado… do pendão auriverde à sombra amiga”.

Castro Alves também concitou a juventude à guerra legítima: “Eu sei que a mocidade é o Moysés no Sinai. Das mãos do Eterno recebe as tábuas da lei. Marchai! Quem cai na luta com glória, tomba nos braços da história, no coração do Brasil. É também do bardo baiano o apelo ao heroísmo: “Basta de covardia! A hora soa e vós cruzais os braços? Covardia! E murmurais com fera hipocrisia: – É preciso esperar! Mas esperar o que?”

Os moços da São Francisco já haviam escutado Nunes Machado: “Vem dizer aos guerreiros do futuro que, se caso o horizonte está escuro, nem por isso eles devem vacilar. Vem dar força dos bravos à fileira, que eles hão de seguir tua bandeira e com ela na frente, vão marchar!”.

Não podia faltar Tobias Barreto, que legou a São Paulo os versos que ainda hoje são repetidos com emoção e orgulho: “Juntemos as almas gratas de colegas e de irmãos. O vento que acorda as matas nos tira os livros das mãos. A vida é uma leitura e quando a espada fulgura, quando se sente bater, no peito heroica pancada, deixa-se a folha dobrada, enquanto se vai morrer”.

O claustro franciscano já ouvira a belíssima oração de Ruy Barbosa, “o verbo do direito, o condestável da liberdade, a voz augusta do semeador das palavras eternas: “Debaixo destes tetos duas evidências há que nos consolam, nos desimaginam, e chegam a desconvencer-nos da morte: a continuidade da tradição e a continuidade da justiça. Bolonha, famosa outrora entre as cidades letradas, se chamava por antonomásia, a um tempo a douta e a livre, associando nas suas antigas moedas à legenda solene de seus direitos: “libertas”, o foro por excelência de mestra: “Bonomia docet”. A São Paulo, indisputavelmente, lhe cabem bem os dois títulos no mesmo brasão: processa a liberdade e ensina a justiça”.

Os acadêmicos paulistas já estavam motivados a participar do que fosse necessário para devolver à Pátria – não apenas a São Paulo – o direito de viver sob uma Constituição respeitada. Não ultrajada. Não vilipendiada. Não menosprezada ou pervertida, na tosca interpretação dos que não sabem e nunca se interessaram por aquilo que é direito e não se afeiçoam à prática do que é justo.

O hino acadêmico da São Francisco, na composição de Carlos Gomes, tem uma estrofe muito significativa: “O Brasil quer a luz da verdade e uma coroa de louros também. Só as leis que nos deem liberdade, ao gigante das selvas convém”.

A oração entusiástica, para persuadir os acadêmicos de que o sacrifício até da própria vida justificar-se-ia pela nobreza da causa, conclui que o Brasil inteiro estava aprendendo com a bravura dos acadêmicos do Largo de São Francisco: “O Brasil sitiado pelas trevas, amordaçado pela censura, emasculado pelo horror das responsabilidades, e o Brasil que para a vossa vitória trabalha nas oficinas e nos campos, nos hospitais e nos transportes: o Brasil em que vã procura limpar na bacia de Pilatos as manchas do sangue do justo, o Brasil que vos ajuda a carregar a cruz do sacrifício”.

Já tivemos paradigmáticas atitudes neste São Paulo que é o baluarte da nação e que pode enxergar, nos dias penumbrosos de 2022, muitos dos sintomas que levaram toda a sua população, em irrepetível coesão de propósitos, a assinar a belíssima página que tem por marco inicial 9 de julho de 1932 e que nos conduziu à derrota bélica, mas a galgar pontos inalcançáveis no ranking do civismo, do heroísmo, do patriotismo e da ética.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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