O Brasil precisa da China

O Brasil precisa da China

José Renato Nalini*

02 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Enquanto os Estados Unidos perderam espaço durante o governo Trump, a China avança e tem tudo para se tornar a maior potência global. A juventude chinesa estuda mesmo, para valer. Não é necessário estimulá-la para isso. Adquirir conhecimento e se aprimorar durante toda a existência é um comando endógeno e atávico.

Agora que o conceito ESG motiva o mundo civilizado a adotar postura sustentável, a China também adere e se torna verde. A Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é alguém insuspeita para falar sobre o tema. Participou do “Diálogo Brasil-China para Agricultura Sustentável” e se impressionou com o Ministro chinês da Agricultura e Assuntos Rurais, Tang Renjian. Ele afirmou na ocasião: “Queremos injetar um novo ímpeto no Brasil para alcançar a agricultura mais sustentável. O Brasil é o primeiro país a criar parceria estratégica coma China para desenvolvimento sustentável e maior parceiro no comércio de produtos agrícolas”.

Para a Ministra, esse é o mundo ideal para a situação brasileira. A China poderosa tem muito a mitigar em termos de emissões de gases causadores do efeito estufa. O Brasil tem muito a oferecer.

Para isso, é preciso que sejam sepultadas as teorias conspiratórias, cessem as ofensas chulas e infantis, iniba-se o palavrório ideológico de gurus que só fazem o Brasil parecer ridículo na comunidade internacional e se estabeleça uma relação madura, consistente e profícua.

O Brasil tem uma legião de miseráveis, que precisam ser alimentados. Mas a China também. E como ela é muito maior, o desafio é decuplicado. O Brasil poderia ser o fornecedor de alimentação para grande parcela do globo. Como diz a Ministra Tereza Cristina, há mais de noventa milhões de hectares de pastos degradados que podem ser revitalizados e incorporados à agricultura, sem necessidade de se derrubar uma só árvore a mais. O que impede o governo brasileiro, então, de zerar o desmatamento, prender os criminosos que invadem áreas públicas e exploram minerais em demarcações indígenas?

A Ministra se entusiasma com o Plano Safra 21-22, que será mais verde para todos, obrigatoriamente com forte apelo agroambiental. Até em relação à pecuária, considerada a vilã, elaborou-se um projeto chamado Plano de Agricultura de Baixo Carbono – Plano ABC, que oferece linhas de crédito subsidiadas para uma pecuária mais sustentável.

A Agricultura tem sido considerada – e com razão – “a salvação da lavoura brasileira”. Mas ela precisa ser ecologicamente equilibrada. O mundo civilizado não comprará comodities produzidas em terra desmatada, por países que não cumprem acordos internacionais e se recusam até a obedecer a sua própria Constituição.

Por enquanto, é apenas a iniciativa privada que está dando os primeiros passos para a concretização da política ESG – o cuidado simultâneo e efetivo da questão ambiental, da questão social e da governança corporativa. Essa cultura não chegou ao governo federal. Diante de tudo aquilo que se perpetrou contra a natureza tupiniquim nestes dois últimos anos, a esperança é que governos subnacionais assumam a liderança no processo. Bom sinal é que São Paulo, que teve protagonismo no trato da pandemia, tenha sido um dos primeiros a firmar compromisso com a ONU rumo a uma descarbonização que saia do discurso e tenha resultados concretos.

Se a diplomacia brasileira não se redimir, inclusive redobrar esforços para aproximação com a China, esta encontrará outros parceiros. Quem viaja sabe que a China se apropriou de muitos projetos nos países africanos, onde está alavancando a economia a construir ferrovias e a fazer infraestrutura de que estas nações encontram-se carentes.

Da mesma forma, o Brasil não pode se vangloriar de ser o único fornecedor de soja. Enquanto nosso país hostiliza os chineses, atribui a eles a criação e a disseminação do vírus da Covid19, a China é recebida de braços abertos na África. Investe maciçamente no cultivo de soja naquele continente, que tem tantas características análogas ao Brasil e que, por isso mesmo, pode desbancar nossa República, incapaz de enxergar que ela precisa – e muito – da China.

As pessoas que conhecem a Ministra Tereza Cristina dizem que ela é uma pessoa sensata, um dos raros perfis equilibrados do atual governo da União. Que ela possa, com sua credibilidade, reverter a conduta pouco esperta – para ser eufemista – do Brasil em relação à China. O poderio chinês encontrará fórmulas de abastecer seu povo de tudo o que é necessário e se alguém pode perder nessa pobre e má política, é o lado mais fraco. Adivinhem quem é?

Que o juízo venha a prevalecer e que a China seja tratada pelo Brasil com o respeito que ela merece.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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