O Brasil nos tempos de cólera

O Brasil nos tempos de cólera

João Linhares*

07 de março de 2021 | 06h00

João Linhares Júnior. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quadra esdrúxula, obtusa, de dissabor…

Desalento, ausência de compaixão e muito ódio.

Perdeu-se o amor?

Escândalos diários, boçalidade, segregacionismo.

Desassossego, desânimo, temor.

A morte sobe diariamente no pódio,

Dilacerante dor!

Rufam os tambores.

E parte do governo mantém-se em solilóquio.

 

Notícias diárias: políticos, juízes, promotores,

Polícia, interesses tacanhos, militarismo.

Povo confuso,

Brasileiro indeciso.

Parece ter sumido da nação a alegria…

Onde está o altruísmo?

Extinguiram-se os ideais da República e da democracia?

 

O homem sereno vindicaria:

queremos gestão, menos letargia e basta de negacionismo!

Uns buscam a consecução do bem,

Outros, pura patifaria!

Carradas só querem o vão protagonismo.

Disputa pelo poder sem pudores.

E o povo jaz no ostracismo.

Grassam a inércia, a sabotagem

E outrossim o autoritarismo.

Esses têm uma vitória de Pirro.

É uma miragem?

 

Alguns se omitem e perduram aquém;

Outros são meros detratores,

Agentes do desdém.

Ameaças a autoridades, turpilóquios,

Flertes com golpismo,

Comportamentos sórdidos!

Cadê os mentores?

Seria maquiavelismo?

Celeumas nas redes sociais, crimes, terra de ninguém.

Acha que é só?

Vai muito além…

Tenha dó!

Professores sendo censurados;

Universidades com interventores,

Ensino arrasado.

Jornalistas perseguidos

E tantos outros humilhados.

A saúde, a economia e a paz nos estertores.

E quase nunca o arbítrio dá em nada.

O séquito grita amém!

Passa-se a boiada.

 

Todavia, existem os que atuam com a verdade.

Estes parecem isolados.

Derruiu-se o racionalismo?

Foi imposto por alguma máfia?

Falta piedade.

Sobra empáfia!

Os cérebros estão encurralados?

Inconsequentes agem com pantomimas e menoscabo,

Com indiferente cinismo.

Problema acabado.

É isso daí…

Zombam de tudo.

Fazem remoque: chega de “mimimi”.

Que absurdo!

Será que alguém ri?

 

A corrupção, o compadrio

E o patrimonialismo

Continuam sendo uma mazela nacional,

Onde se mete o dedo,

Chega a dar até medo!

Não tem fundo o abismo…

Encontra-se um Estado em putrefação,

Um inferno dantesco,

Uma obra de ficção!

E um país de contraste abissal,

Enfim, um pântano grotesco,

Com nítido tratamento desigual.

 

Há, não em outro rincão,

Aqui mesmo no Brasil,

um povo trabalhador, generoso e bom,

mas também muito indivíduo e autoridade imoral,

Que chega a causar asco e aversão.

E uma indignação geral!

 

O povo nos casebres e nas favelas,

Enquanto os corruptos se deleitam em ostentação.

Voam em helicóptero, jatinho,

Compram mansão…

Lindos lagos à vista.

Tudo no “jeitinho”.

Coisa de vigarista.

Por que não?

As famílias, desamparadas, choram pelos seus mortos;

Acendem velas.

Os caminhos são dolorosos.

Na cena pública, às favas com a razão!

 

Usam argumentos pífios,

Vertem estrupícios,

Como se estivéssemos nos circos.

E nas terras de cangaços,

Ou em áreas dominadas pela milícia,

Na ribalta dos palhaços!

O povo, dentro de casa, brada desesperado:

Chega de pizza!

E promove os panelaços…

 

O que fazer para avançar,

Josés, Marias, Dolores,

Numa terra em transe

E de tantas dores?

Vamos embora pra Pasárgada?

*João Linhares Júnior, mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona (Espanha). Especialista em Controle de Constitucionalidade e Direitos Fundamentais pela PUC-RJ. Eleito integrante da Academia Maçônica de Letras de MS

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