O Brasil nas disputas geoeconômicas globais

O Brasil nas disputas geoeconômicas globais

Igor Macedo de Lucena*

05 de setembro de 2020 | 08h00

Igor Macedo de Lucena. FOTO: DIVULGAÇÃO

A geoeconomia é caracterizada pela utilização de instrumentos econômicos com o objetivo de promover ou defender os interesses nacionais, dessa maneira tem também a intenção de produzir um benefício geopolítico. A geoeconomia é a mais clara demonstração da disputa pelo poder entre as nações, que passa para uma nova dimensão em que não mais se usam tanques e exércitos para aumentar sua influência mundial, mas sim corporações multinacionais, fundos soberanos e empresas estatais.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a criação da Organização das Nações Unidas e a instituição da União Europeia, o nível de conflitos militares no mundo diminuiu consideravelmente, entretanto isso não significou que as nações deixaram de competir pela expansão de seu poder e de sua influência. Alteraram-se apenas as estratégias e os instrumentos.

O maior e mais influente agente geoeconômico global continua sendo os Estados Unidos, pois conseguiram introduzir sua moeda como reserva mundial de valor e ao mesmo tempo como principal meio de troca entre as nações, colocando o dólar como o principal ativo financeiro do planeta. Ao mesmo tempo, políticas de ajuda humanitária realizadas por instituições como a U.S AID aos países subdesenvolvidos e a criação da Economic Diplomacy, em que seus consulados e embaixadas passaram a focar nos interesses comerciais das empresas norte-americanas, mostram como agentes públicos e privados podem trabalhar unidos dentro de uma interdependência complexa de interesses convergentes.

A União Europeia em si também é um importante player dentro das disputas geoeconômicas globais pela existência do Mercado Único Europeu, que envolve 27 Estados membros mais 5 Estados associados, garantindo a livre circulação de capitais, produtos e serviços para mais de 500 milhões de consumidores, e um PIB combinado de aproximadamente 20,3 trilhões de dólares. Além disso, a União Europeia vem se destacando por exportar seus modelos regulatórios para empresas ao redor do planeta, além de expandir o uso do Euro como moeda transacional e segunda maior reserva de valor.

A China talvez seja hoje a mais ousada das potências geoeconômicas, pois foca no uso de empresas estatais (State Owned Enterprises) com financiamentos subsidiados e uma agressiva política de aquisição de concorrentes e participação em mercados estrangeiros. Sua mais importante política externa hoje é a chamada Belt and Road Intiative, que visa realizar obras de infraestrutura na Europa, na Ásia e na África interligando financiamentos internacionais e a participação de grandes empresas chinesas ao redor do planeta. Atualmente, a BRI já começa a desenvolver projetos na América e vem sendo comparada a uma versão ampliada do Plano Marshall ou uma recriação da Rota da Seda.

Mas e o Brasil? Onde estamos sob o ponto de vista geoeconômico? Primeiramente é importante ressaltar que devido às importantes dotações minerais, geográficas, populacionais e econômicas do Brasil, que servem de atrativo para as potências estrangeiras projetarem o seu poder, podemos colocar o Brasil como um dos mais importantes palcos das disputas geoeconômicas globais. E isso não é de hoje, tendo em vista que investimentos estrangeiros ocorrem no Brasil desde o Império.

Por outro lado, o Brasil ainda precisa melhorar seus instrumentos e estratégias quando se fala em se tornar um Player geoeconômico global. Precisamos expandir nossa economia, pois atualmente participamos apenas com cerca de 2% do comércio global de bens e serviços, impedindo um maior intercâmbio de negócios. Tal como na Europa ou na China, precisamos redirecionar a função de parte das estatais para ‘trabalharem’ a nível global e em favor dos interesses brasileiros fora de nossas fronteiras. Aquelas deficitárias e sem valor estratégico não possuem mais sentido existirem como um peso no bolso do contribuinte. O MERCOSUL, um importante veículo capaz de aumentar nosso comércio exterior, deve ser impulsionado como plataforma de exportação também de investimento direto estrangeiro, aumentando a participação de nossas empresas nacionais em outros países e ao mesmo tempo sendo utilizado para tornar o Brasil uma liderança regional na América Latina do ponto de vista de mercado e negócios, algo que foi feito por várias potências europeias durante décadas. Outro importante aspecto a ser ressaltado é a realização de mais acordos com blocos estrangeiros, que, apesar de longos e complexos, vêm sendo úteis para diminuir barreiras e entraves aos investimentos globais.

Mais que isso, o Brasil precisa desenvolver sua própria política geoeconômica, que acreditamos não ser tão liberal quanto à do modelo americano, mas também longe da centralidade do modelo Chinês. Talvez fosse melhor o modelo Europeu, que consegue mesclar esses dois modelos antagônicos, levando em consideração disparidades regionais e objetivos globais, de tal modo que seja algo que devemos olhar com mais atenção e a partir daí desenvolver estratégias e instrumentos capazes de projetar nosso poder econômico e expandir nossos interesses a nível global, mostrando que o Brasil não é apenas um importante palco, mas também pode ser um importante player a nível global.

Utilizando as palavras do ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos e importante cientista geopolítico, Zbigniew Brzezinski: “Falta-nos uma Grand Strategy.”

*Igor Macedo de Lucena é economista e empresário, doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e e da  da Associação Portuguesa de Ciência Política

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