O Brasil não pode atrasar mais seu processo de digitalização

O Brasil não pode atrasar mais seu processo de digitalização

Marcos Ferrari*

17 de julho de 2021 | 07h00

Marcos Ferrari. FOTO: DIVULGAÇÃO

Já há alguns anos que o mundo se acostumou a viver na era pós-digital. A tecnologia está tão presente na vida de todos que, na maioria dos casos, ela sequer é notada. Pelo contrário, o que gera surpresa e desconforto nos dias de hoje é a sua ausência, que ocorre quando ficamos impedidos de fazer uso de serviços básicos, casos dos aplicativos de conversa, delivery e mobilidade urbana. Não é mais suficiente dizer que as pessoas e empresas simplesmente usam os recursos tecnológicos, pois esse estágio já foi superado. O mundo digital transformou comportamentos, desde regras de convivência ao jeito de fazer negócios.

No mundo corporativo, estão inevitavelmente na rota do fim as poucas empresas que ainda não perceberam que o único caminho de sobrevivência é por meio de Inteligência Artificial e Big Data. O motivo? A exclusão digital. A competitividade gerada pela economia digitalizada não perdoa mais aqueles que ficam à sua margem. Dentro do Brasil e, sobretudo, globalmente.

Os países mais desenvolvidos largaram na frente na corrida pelo 5G e contam com tecnologia, recursos financeiros e – tão importante quanto – políticas públicas que favorecem a expansão da conectividade. Aqui no Brasil existem enormes barreiras. A começar pela carga tributária altíssima, de mais de 40%. Aproximadamente metade do valor da nossa conta de celular ou de internet á composta por impostos. Muitos países já entenderam que o acesso à internet de qualidade é condição primordial para o desenvolvimento de negócios na não tão nova economia digital. A taxação é, em média, apenas 10%. O Brasil não pode impor à conectividade uma carga tributária equivalente a bebidas alcoólicas e cigarro. É preciso entender que a internet representa hoje insumo básico para praticamente todos os setores produtivos. Dar as costas a essa realidade significa minar projetos promissores de empreendedores e tolher a competitividade das empresas que concorrem no disputado mercado internacional.

Essas preocupações ficam ainda mais evidentes em tempos de pandemia. O trabalho remoto que milhões de brasileiros adotaram no último ano veio para ficar. O estudo Tendências de Marketing e Tecnologia 2020 da FGV indica que 30% das empresas brasileiras devem manter o home office após a pandemia. O E-commerce é um outro bom exemplo. De acordo com a McKinsey, o e-commerce brasileiro faturou 62% a mais desde o início da quarentena. Dados da Fecomércio mostram que 46% dos brasileiros aumentaram o consumo online. Houve grandes saltos no uso da telemedicina e ensino à distância. São mudanças definitivas nos hábitos, cada vez mais incorporados em um caminho sem volta.

Com todo esse cenário evidente sobre a importância da conectividade, salta aos olhos ainda não haver uma mobilização que facilite a sua propagação em todos os cantos do País. Com relação à infraestrutura, existe uma grande dificuldade para a implantação de antenas. As leis municipais são em sua grande maioria ainda muito defasadas, até 30 anos em alguns casos. Não acompanharam a evolução tecnológica e há hoje mais de 5 mil pedidos de antenas parados nas prefeituras. Esse problema precisa ser urgentemente resolvido para viabilizar a chegada do 5G, que requer uma densidade de antenas até dez vezes maior que o 4G.

Enquanto alguns países distribuem vouchers para que pessoas desfavorecidas tenham acesso à internet, milhares de brasileiros passam fome por não conseguirem receber o auxílio emergencial, digitalizado em certa parte pelo Governo. Por sua vez, o setor de telecom investe historicamente mais de R$ 30 bilhões por ano para dar suporte às iniciativas públicas e privadas na crescente demanda pelo tráfego de dados.

A competição na economia conectada se torna cada vez mais desafiadora e não há mais tempo a perder. O Brasil precisa criar as condições para o desenvolvimento tecnológico e evitar que seja atropelado por aqueles que já entenderam como o mundo está configurado nos dias de hoje.

*Marcos Ferrari é presidente executivo da Conexis Brasil Digital

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