O Brasil na UTI

O Brasil na UTI

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay*

04 de julho de 2021 | 13h57

Antônio Carlos de Almeida Castro. FOTO: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

 

“E amanhã eu vou ter de novo um hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje.”
Clarice Lispector

Penso que devemos fazer uma discussão necessária.

Conversei há pouco com alguns Senadores e vejo que há uma hipótese de suspensão da CPI da Covid durante o recesso de julho. Respeitosamente, eu espero que o Senado tenha conseguido uma liminar para impedir qualquer morte durante esse período. Não sei bem quem teria esse poder, mas só assim é possível entender a interrupção dos trabalhos da CPI.

Já disse mais de uma vez, essa não é uma CPI das construtoras, dos bancos, é uma CPI do desastre sanitário que se abateu sobre o país. É necessário apontar os responsáveis por boa parte desses óbitos. Já contabilizamos mais de meio milhão de mortos. E precisamos saber quem ganhou dinheiro com nossa dor.

Há, neste momento, uma expectativa de que os maiores de 60 anos estejam morrendo menos, em razão de um número maior de vacinas aplicadas nessa faixa etária. Mas as novas cepas atingem cruelmente, cada vez mais, pessoas mais novas. E tudo indica que as vacinas só começaram a aparecer no mercado brasileiro, em boa parte, em razão do trabalho da CPI. Ou seja, a CPI salvou vidas!

Não tivesse a CPI desnudado a irresponsabilidade criminosa do governo na omissão dolosa de não compra das vacinas, estaríamos, ainda hoje, a discutir se a vacina seria ou não a melhor opção para vencer o vírus.

Hoje a controvérsia é sobre quem ganhou dinheiro criminosamente com a omissão e com as escolhas de produtos não aprovados pela ciência. É sobre os inúmeros crimes de responsabilidade, como se fosse um serial killer, cometidos pelo Presidente da República, no trato da questão relativa ao objeto da CPI.

Não há espaço para interromper a investigação. Em nome dos mais de 500 mil brasileiros que foram vencidos pelo vírus. Em homenagem aos milhões que sofrem e sofreram essa perda, eu espero que os Senadores não façam essa interrupção durante o recesso. Seria como parar um tratamento de um brasileiro infectado pela Covid. Um brasileiro na UTI. O Brasil está na UTI e o Senado sai de férias.

O que se espera é uma investigação séria e objetiva. Mas também rápida. O ideal seria um relatório parcial com a indicação técnica e pormenorizada dos crimes, especialmente os de responsabilidade, e o encaminhamento imediato para a Câmara, PGR e demais autoridades. E o aprofundamento das investigações sobre corrupção e outros temas. Depois discutiremos os poderes imperiais dos que receberão o relatório dos Senadores, mas agora vamos cobrar resultado.

O tempo é ontem. Nossas dores e nossas angústias não suportam mais. Não sabemos mais como viver com essa perplexidade. Se o Senado mandar parar o tempo, nós, definitivamente, teremos que deixar de acreditar na política. Tudo tem hora. Até ter hora de parar a hora tem que ter hora.

Todos sabemos das trapaças da sorte que é uma investigação pela CPI. Mas o jogo é jogado. O que não se pode é, no intervalo da partida, um dos times pegar a bola e se retirar. Normalmente, quem faz isso é o dono da bola. No caso dessa CPI, o dono da bola é o povo brasileiro.

E nos socorrendo do grande Augusto dos Anjos, no poema O Morcego:

“Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela igneo e escaldante molho.

‘Vou mandar levantar outra parede…’
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!”

*Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay – advogado

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