O Brasil merece mais

O Brasil merece mais

André Naves*

16 de abril de 2021 | 08h00

André Naves. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O sorriso e a Beleza parecem ter abandonado o Brasil. Ele foi substituído pela estridência malsã dos intolerantes. Ela foi expulsa pelos maus modos e pela ignorância que aqui fizeram morada. Terra de Belezas naturais e horrores sociais, encaramo-nos num espelho estilhaçado da realidade e detestamos o que vimos. A nossa musicalidade festeira, embalada pelos verdes, amarelos e azuis, deitara seus fundamentos sobre os mais cinzentos vícios…

Daquilo que Daron Acemoglu e James Robinson chamaram de corredor estreito, desviamo-nos com maestria. Solidificamos um sistema de castas e privilégios ancestrais que inviabilizaram toda e qualquer segurança institucional. Os carnavais e os malandros, tão denunciados por Roberto da Matta, buscaram conferir alguma roupagem de romantismo passional a tanta sujeira. O sorriso nunca abandonou o Brasil: as fissuras sociais que foram, por tanto tempo, escamoteadas pela alienação foliã afloraram, tal qual rosa vermelha que rompe o asfalto cinza…

Genocidas, negacionistas e toda a obtusidade, reagindo à emergente rosa vermelha, parecem dominar. Nada mais falso. Assim como as exasperações festeiras de outrora subjugavam as injustiças sociais, a ignorância terraplanista de agora é apenas uma cãibra que antecede o clímax. Quando os vermes forem desterrados, o sorriso voltará ao seio nacional. Mas cabe a nós, o terceiro pilar de que fala Raghuran Rajan, a sociedade civil, construirmos instituições sólidas e estáveis, atrativas dos investimentos, que possam suprir nossas carências sociais.

Conservar as instituições funcionais e aprimorar aquelas ineficazes é parte de um trabalho constante e disciplinado, tão bem retratado nas imagens poéticas do “Café Espresso” de Cassiano Ricardo, a ser realizado por todos, indivíduos e coletividades, objetivando a concretização da Beleza Moral, representada na efetivação ampliativa dos Direitos Humanos.

É que a Beleza é fundamental, como já dizia Vinícius, mas ela, além de um preceito estético também pode ser entendida como a disposição estratégica na superação dos nossos obstáculos individuais e sociais.

Quando a Beleza, vale dizer, a estratégia na superação de nossas mazelas individuais e sociais, aliada ao nosso trabalho disciplinado, isso é, à nossa Força, reinar em nosso meio, poderemos cantar loas à tolerância e ao Sorriso, que voltarão a determinar nossa convivência social. Nesse momento, o canto da sereia não será mais visto como armadilha que nos arrastará para a perdição, mas sim como boa música que nos alertará para os infortúnios de nosso meio.

Uma terra baseada nas melhores e mais poéticas utopias, com sabiás que gorjeiam em palmeiras, com pelés, niemeyeres, villas-lobos, jobins, buarques, cândidos e tantos outros, possui, em sua gênese, um gradiente imenso de criatividade que, quando adequadamente aproveitado, gera inovações, empreendedorismos, desenvolvimento e, acima de tudo, Justiça.

O Brasil merece mais! Nós, brasileiros, devemos isso a ele!

*André Naves, defensor público federal e comendador cultural, é mestre e doutor em Direito Internacional e Economia

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