O Brasil é ‘rododependente’

O Brasil é ‘rododependente’

Rodrigo Augusto Prando*

26 Maio 2018 | 12h00

Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

A paralisação de parte considerável dos caminhoneiros e as consequências para a sociedade brasileira revela duas dimensões distintas, mas complementares: a estrutural e a conjuntural. Vejamos.

Estruturalmente, o país optou, há ao menos uns 50 anos, pela prioridade do modal rodoviário. Tal escolha deixou em patamares inferiores a possibilidade de construção e utilização de ferrovias e hidrovias.

Privilegiar a rodovia em detrimento do modal ferroviário ou hidroviário nos tornou ‘rododependentes’, quase tudo, tudo mesmo, necessita do petróleo – gasolina e diesel – e do asfalto para ser transportado no Brasil.

Investimos pouco em infraestrutura e em melhoria da logística e, quando investimos, só reforçamos a ‘rododependência’.

O já conhecido ‘custo Brasil’ é elevadíssimo, sobretudo pela ineficiência de nosso modais, encarecendo os preços ao consumidor final.

Deveríamos aproveitar o ano eleitoral para questionar os postulantes ao Planalto quais seus planos, suas metas, mas, não, o quadro político é assaz apequenado, para não dizer medíocre.

Os interesses econômicos da indústria automobilística, das transportadoras, das empreiteiras que constroem estradas conjugadas à estreiteza de visão de nossa classe política bate, hoje, à nossa porta. E voltará a bater.

Em termos conjunturais o cenário não poderia ser pior.

Caminhoneiros autônomos – que muitos indicam ter iniciado o movimento – são, realmente, uma classe de trabalhadores que merece respeito, admiração e melhores condições de laborar.

No entanto, não se deve, em nada, se esquecer da marca indelével dos interesses da classe patronal que, aproveitando-se da fraqueza do Governo Temer, usou mais de chantagem do que de negociação.

Parece que o foco está, no momento, na política de preços da Petrobrás, que tem sido adotada por Pedro Parente, para acompanhar as flutuações do mercado, sem intervenções políticas e populistas.

Parente e os demais executivos da Petrobrás empreenderam um homérico esforço para sinalizar ao mercado que os tempos da ingerência política se foram e conseguiram sanear uma organização que se encontrava arrebentada.

O governo, dia 24/05, anunciou acordo com as principais lideranças do movimento, mas, nada se apresenta como melhora do quadro de crise e angústia.

Temer, há pouco, aventou a possibilidade de intervenção das forças armadas e policiais para garantir a liberação das estradas que, por si só, é parte do problema, pois os caminhoneiros liberam a passagem, mas podem continuar a paralisação e não transportar comida, combustível, remédios e oxigênio para os hospitais.

Frotas de ônibus e viaturas das polícias e ambulâncias estão diminuindo sua frequência nas ruas.

Os políticos, muitos meros aproveitadores da desgraça, querem, neste ano político, pisotear a população, colocando, como de costume, seus interesses acima dos interesses de toda uma sociedade.

Não nos enganemos: se o combustível está caro, o frete aumenta de valor e isso chega ao consumidor, sempre.

Se o governo diminuir impostos para uma categoria, cobrará, depois, de todos os contribuintes. Não tem solução mágica ou simplista.

O governo Temer se curvou e atendeu às postulações e, ainda assim, o temor não cessa.

Não faz muito, em resposta à jornalista que me questionou como deveria um pai se comportar com a falta de comida para um filho, ou remédios, tive que respirar e responder: devemos ter paciência, buscar a manutenção de nossos direitos na Justiça, se for o caso; agir com inteligência, não usar de violência.

Não podemos, por legítimo que seja a reinvindicação de uma categoria, qualquer que seja, ficarmos reféns, cerceados, desprovidos de nossas liberdades, de nossos direitos.

Mas, sabemos, a paciência pode acabar.

*Cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É bacharel e licenciado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp/FCLAr

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