O Brasil e o recado das urnas

O Brasil e o recado das urnas

Rodrigo Augusto Prando*

11 Outubro 2018 | 08h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Findado a primeira fase deste pleito eleitoral, as urnas deixam um claro recado: essa eleição será, doravante, considerada paradigmática em muitos aspectos. Quase tudo o que se conhecia de alianças políticas e de estratégia de comunicação política e eleitoral está colocado em xeque.

Neste cenário, Bolsonaro quase foi eleito no primeiro turno, mas está, junto com Haddad, no segundo turno.

Em primeiro lugar, pensemos, juntos, na questão das alianças políticas entre os partidos. Um colega, há tempos, bem no início da campanha, me questionou: “já imaginou se o Bolsonaro ganha essa eleição? Poderá, tranquilamente, bater no peito e afirmar: ganhei sozinho!”.

E, por incrível que pareça, o partido ao qual Bolsonaro se filiou, o PSL, até pouco um nanico, e, depois, só conseguiu se coligar com o PRTB, também um nanico, conseguiram, juntos, desbancar partidos tradicionais, bem como lideranças consolidadas.

Na escolha dos vices, por exemplo, Bolsonaro tentou, tentou, e não conseguiu alguém que pudesse, na chapa, amainar sua imagem. Então, o general Mourão, do PRTB, não só não suavizou, mas trouxe dificuldades à campanha com declarações polêmicas.

Em 2014, o PSL elegeu apenas um deputado federal, com a filiação de Bolsonaro, outros sete se agregaram ao partido e, agora, o resultado trouxe a segunda maior bancada da Câmara com 52 eleitos.

Assim, um candidato com dois partidos nanicos, hoje, já apresenta apoios de peso: o seu partido, PSL; a frente ruralista, bancada da bala, deputados evangélicos e, não tenhamos dúvidas, o Centrão (PP, PR, PRB, DEM, Solidariedade – com cerca de 137 deputados).

Para quem partiu quase do zero, desacreditado, Bolsonaro, se eleito, constitui uma sólida base de apoio parlamentar, dando, inclusive, possibilidade de construir a maioria qualificada necessária para aprovação de muitos projetos do Poder Executivo.

Em segundo lugar, a aposta de muitos de que o tempo de rádio e televisão faria a diferença não se confirmou.

Bolsonaro, antes que os demais candidatos, construiu uma fortaleza nas redes sociais. Seus seguidores fizeram e fazem, gratuitamente, forte campanha e são implacáveis no ataque aos adversários e, até, contra aqueles de seu círculo de convívio mais próximo que discordam das ideias de seu “mito”.

Bolsonaro e seus articuladores de campanha transitam muito bem na linguagem das redes sociais, assentada na superficialidade de ideias, “memes”, “lacração” e vídeos curtos via WhatsApp com forte capacidade de comunicação viral.

Dependemos, ainda, de pesquisas qualitativas e quantitativas, mas essa eleição é, por certo, a mais digital de nossa recente história. Os impactos na formação das convicções e dos votos serão, em breve, mensurados e interpretados pelos especialistas da área.

Em terceiro lugar, essa eleição foi a mais “anti” de todas. E, novamente, foi o capitão que surfou na onda iniciada nas jornadas de julho de 2013 e no desgaste do PT, com o impeachment de Dilma e a prisão de Lula.

Bolsonaro se apresentou como antipolítico, antipetista, anti-Lula e antissistema. E, surpreendentemente, um deputado do baixo clero com quase 30 anos de vida parlamentar, com pouca realização no Legislativo, com familiares na política, conseguiu firmar-se como o mais “antitudo” e “antitodos”.

Uma eleição, portanto, mais alicerçada sobre o ódio ao adversário convertido em inimigo, o medo e a rejeição do que em propostas, discussão de projetos e de ideias para retirar o país da crise em que se encontra. E, nesta seara de tomar o adversário como inimigo, há enorme contribuição do discurso petista, das teses lulistas, de construir as narrativas entre “nós” e “eles”.

Outro ponto a ser considerado foi o ataque sofrido por Bolsonaro em ato de campanha. Quase morto por uma facada teve que se retirar no auge do processo em voga. A facada acabou, no caso, por lhe colocar na condição de vítima, poupando-o dos ataques dos adversários, que, rapidamente, tiveram que repensar suas estratégias de campanha e, com isso, ficaram perdidos.

Num momento em que suas entrevistas e suas participações nos debates revelavam suas fragilidades, ficou, por orientação médica, afastado do cotidiano da campanha, mas manteve a sua participação nas redes sociais.

Pronunciamentos de seu economista, Paulo Guedes, e de seu vice, general Mourão, causaram ruídos e incômodos e foram, prontamente, desautorizados por Bolsonaro. Em que pese o fato de quase ter sido assassinado, sua saída de cena foi providencial, daqueles momentos que, como diria Maquiavel, a fortuna lhe sorriu largamente.

Em síntese, o Brasil que sairá desta eleição e o recado das urnas serão de uma quebra de paradigmas.

Lula era líder em intenções de voto, mas está preso e inelegível. Bolsonaro era o segundo colocado e passou a liderar a corrida presidencial sem Lula. Mesmo preso, Lula comanda a campanha de seu ungido, Haddad.

Ambos – Bolsonaro e Haddad – peleiam pelos votos, mas tem enormes rejeições. Bolsonaro, por certo, entra na reta final com mais musculatura, no entanto, Haddad pode conseguir articular uma ampla frente para enfrentar o capitão e, ainda, no enfrentamento direto nos debates, ganhar pontos.

Não sabemos se, ao fim e ao cabo, do processo eleitoral o país estará pior ou melhor, mas, certamente, muito diferente.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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