O boom de fusões e aquisições de startups no Brasil cria uma nova economia

João Cristofolini*

23 de junho de 2021 | 04h00

Dinâmico e cheio de riscos, o mundo das startups vem registrando um crescimento significativo de Early Exits, as vendas de empresas de tecnologia com até cinco anos de vida por valores de até US$100 milhões. O processo é impulsionado pela necessidade de inovação constante de grandes instituições, puxadas pela aceleração das transformações digitais, acentuada pela pandemia. De acordo com dados da plataforma de inovação Distrito,  o número de aquisições de startups cresceu 120% só nos quatro primeiros meses deste ano. Foram 77 negócios em comparação aos 35 registrados no mesmo período do ano passado.

Esse tipo de negócio vem se mostrando um evento interessante para todos os envolvidos: o empreendedor que cria sua solução e lucra, a grande empresa que consegue inovar via aquisição, e o investidor que realiza seu evento de liquidez num espaço de tempo interessante.

Da perspectiva do empreendedor, a conta é a seguinte: o que você faria se recebesse uma proposta para vender sua startup, no momento em que o produto se confirmou inovador, com projeções futuras animadoras? Tanto, que grandes empresas estão querendo pagar um ótimo dinheiro por seu negócio. E então, você fecharia um bom deal agora ou continuaria trabalhando para apostar em uma venda futura? Ou um evento de IPO que pode ser maior, mas pode não acontecer? Não precisa responder agora – um pouco de prudência é sempre bom no mundo dos negócios. Mas também não pode demorar muito.  Essa é a realidade do empreendedor.

Do lado das grandes compradoras, resumidamente, funciona assim: as startups criam um negócio, que começa a ganhar força no mercado. As grandes instituições precisam se adaptar rápido. Mas elas são um transatlântico, qualquer movimento seu é lento. Além disso, vale ressaltar que chegar a uma inovação é um processo que envolve erros e investimentos. Essa é matéria prima da startup, mas não é a de uma grande empresa.  Então, já validadas e escaladas no mercado, com muito potencial para crescimento, essas startups são compradas e incorporadas à estrutura maior, juntamente com todo o seu time, que é também um gargalo enfrentado pelo setor de inovação.

Por fim, o investidor. Em meio a esse processo, a baixa na rentabilidade dos investimentos em renda fixa vem direcionando um número crescente de investidores para renda variável. E esse é um ativo novo que vem se mostrando atrativo. A cada evento de saída o investidor realiza sua liquidez e quase todo dia uma startup, pelo menos, é vendida. Há de se respeitar o risco altíssimo de se investir em startups, considerado também o fato de que a grande maioria não vai vingar. Mas, aquelas que dão certo, dão muito certo. Daí a estratégia básica de diversificar os investimentos em várias startups: a que deu certo geralmente compensa as outras.

Importante mencionar também que a fusão de grandes empresas com startups estratégicas,  além de gerar liquidez de curto prazo para os empreendedores e investidores, pode viabilizar a criação de algum negócio ou solução novos ou até a sonhada escala para aquela startup, e com ganhos muito maiores. Mecanismos como o ernout ( pagamento de parcela adicional condicionado a metas) e ou distribuição gradual de ações da empresa compradora tendem a manter o time de empreendedores focado, viabilizando o surgimento de novas disrupções.

Considerado todo o contexto, As startups e esse boom de fusões e aquisições que estamos vivendo são boas notícias. Toda essa operação gera empregos, gera consumidores, movimenta a economia e promove a modernização de diversos segmentos. E mais do que um evento pontual, as fusões e aquisições de startups tendem a crescer e acelerar cada vez mais, promovendo uma verdadeira mudança na economia macro como um todo.

*João Cristofolini é cogestor e sócio-fundador da rede de PUDOs (pontos de coleta e retirada) Pegaki, startup adquirida recentemente pelo Grupo Intelipost

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