O Boi-Bumbá: patrimônio cultural do Brasil

O Boi-Bumbá: patrimônio cultural do Brasil

Allan Carlos Moreira Magalhães*

18 de outubro de 2020 | 05h00

Allan Carlos Moreira Magalhães. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e Parintins é reconhecido patrimônio cultural do Brasil pelo IPHAN no ano de 2018 com o Registro no Livro das Celebrações. Contudo, o desejo de promover a referida salvaguarda tem início no ano de 2002, com o pedido da Secretaria de Cultura do Amazonas para a proteção do Festival Folclórico de Parintins, com a disputa entre os Bois-Bumbás Garantido e Caprichoso.

Um longo lapso temporal transcorreu entre o primeiro pedido oficial (2002) e a efetivação do Registro (2018). Mas, um aspecto merece destaque, e inclusive explica em parte essa demora: a amplitude conferida ao referido Registro, pois os estudos técnicos demonstraram que o Boi-Bumbá não se encontra presente apenas em Parintins, mas na região do Médio Amazonas, assim como existem diferentes formas de brincar de Boi que não apenas o Boi de Arena/Palco que acontece na Ilha Tupinambarana.

É fato que os Bois-Bumbás de Parintins que se encontram agasalhados nas estruturas da indústria cultural possuem uma visibilidade maior, com projeção nacional e internacional, movimentando a economia neste setor, mas que precisa se curvar ao espectro cromático do Vermelho e do Azul que adorna as disputas entre Garantido e Caprichoso, dividindo o Bumbódromo e as “galeras”, fazendo com que o merchandising de grandes multinacionais como a Coca-Cola se submeta a essa disputa de cores.

A absorção do Festival de Parintins pela indústria cultural fez com que as agremiações dos Bumbás Garantido e Caprichoso adequassem paulatinamente a sua estrutura organizacional, profissionalizando-a para atender às exigências deste segmento econômico. Mas, o folguedo do Boi-Bumbá possui duas outras formas de se manifestar: o Boi de Terreiro e o Boi de Rua, cujos vínculos que unem os brincantes são de base familiar e construídos a partir das vivências socioculturais.

Mas, é importante registrar que as três formas de brincar de Boi (Palco, Terreiro e Rua) se sucedem no tempo, ao mesmo tempo em que são concomitantes. Os bumbás Garantido e Caprichoso antes das disputas travadas na arena do Bumbódromo foram brincados nas ruas de Parintins (espaço público) ou mesmo no terreiro (espaço privado).

E há outros Bois-Bumbás nos municípios do Médio Amazonas como o Corre-Campo, Estrelinha, Tira-Prosa, Corajoso, Treme-Terra que não são tão conhecidos como os Bumbás de Parintins, mas que merecem e devem possuir igual proteção, ou até mesmo uma maior proteção pelo Poder Público, do que a conferida aos Bois da Ilha Tupinambarana, pois estão mais susceptíveis as vicissitudes do tempo, caso não sejam objeto de políticas públicas de promoção e salvaguarda.

É na abrangência do Registro dos Bois-Bumbás do Médio Amazonas, que emprega a ideia de complexo para sintetizar a quantidade e a diversidade de elementos que compõem essa expressão cultural amazônica, aonde reside a sua maior riqueza, pois confere igual importância a todas as formas assumidas por esse folguedo popular que faz parte da vida da comunidade.

A pandemia trouxe grandes desafios, em especial para o setor cultural, que precisa se reinventar para conferir acesso ao público, e no caso de Parintins é mais significativo porque os torcedores dos Bumbás – as “galeras” – não são apenas expectadores, mas partícipes ativos da festa.

O Festival de Parintins não ocorreu nesse ano de 2020 em razão da pandemia. Tentou-se adiar, postergar, remarcar, mas a disputa entre os Bois Garantido e Caprichoso foi frustrada. Pela primeira vez em mais de 50 anos a festa deixa de acontecer. Contudo, o festival é o auge dessa manifestação cultural, mas que nem começa e nem se esgota nele, pois faz parte da vida da comunidade local que enquanto detentora desta manifestação cultural tem a incumbência, junto com o poder público de assegurar a sua continuidade.

*Allan Carlos Moreira Magalhães, doutor em Direito, professor e pesquisador com estudos no campo dos Direitos Culturais, articulista do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult)

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