O berço do egoísmo no Direito

O berço do egoísmo no Direito

Bruno Pedro Bom*

19 de outubro de 2021 | 10h00

Bruno Pedro Bom. FOTO: DIVULGAÇÃO

A sociedade evolui, assim como o Direito, mas as instituições jurídicas que regem a profissão não foram adaptativas o suficiente para construir um cérebro civilizado como se deveria ser.

A natureza fundamental do homo sapiens remonta aos seus antepassados, a luta diária contra a barbárie que caracteriza a civilização na busca da sobrevivência. O advogado é ser que vive com outros, dos outros e principalmente, para os outros.

O Direito do século XXI é repleto de recursos técnicos e sociais nunca vivenciados, advindos de novas tecnologias. Precisamente por tantos caminhos, pouco se reflete sobre o maior desafio na profissão: o olhar aos seus profissionais.

O excesso de leis e principalmente, a legislação antiquada e não compatível com o exercício da advocacia no cenário vigente, em especial a que norteia a profissão, O Código de Ética e Disciplina da OAB, como o Provimento 205/2021, embora realize certos movimentos, não é compatível com a agressividade empresarial brasileira e impossibilita a classe de exercer com toda a plenitude sua função social, muitas vezes sendo impeditivo de sobrevivência na profissão e do acesso à justiça.

O excesso de restrições limita os operadores do Direito no seu desenvolvimento e na construção de relevância no novo e digital cenário, restringindo a competitividade dos advogados em comparação a outros profissionais prestadores de serviços. Segundo os textos budistas: Devido ao seu egoísmo, o homem faz da sua vida um verdadeiro naufrágio.”

Muitas religiões condenam e versam sobre o egoísmo, no Cristianismo, o egoísmo foi protagonizado por Lúcifer (IS 14) Adão e Eva (Genesis). Um estudo da história revelará a desumanidade do homem para com seu próximo causada pelo egoísmo. O egoísmo é a causa básica de toda miséria desde o início até os tempos de hoje.

A palavra egoísmo é derivada do latim, “ego”, que significa “eu”, mais o sufixo “ismo”, que é utilizado para formar o nome que corresponde a uma doutrina, uma ideologia, uma teoria, uma corrente de pensamento.

E assim temos as palavras egoísmo, que designa aquele que tem o “eu” como ideologia, aquele que concentra sobre si seus próprios pensamentos e interesses.

O egoísta é um indivíduo que tende a olhar somente na direção de suas opiniões e de suas necessidades e, ao mesmo tempo, tem a tendência em desprezar as necessidades dos outros. O egoísta é um exclusivista por natureza.

Existem algumas características marcantes em pessoas com personalidade egoístas. São pessoas que só agem por interesses próprios. Nunca olham para o outro, somente para suas vantagens. De igual forma, têm extrema dificuldade em enxergar e ajudar o próximo. Muito comumente, são pessoas dissimuladas, pois procuram esconder suas falhas. Frequentemente, se passam por pessoas generosas e por meio de pseudodiscursos virtuosos, deslocam para terceiros a sua intenção.

Há uma palavra que se pode considerar contrária ao termo egoísmo, e foi criada por Augusto Comte, em 1830, que é a palavra altruísmo.

A palavra altruísmo é derivada do latim “alter”, traduzida para o francês como “autre”, que significa outro. Ao contrário do egoísta, o altruísta é aquele que tem uma disposição para se interessar pelo outro; aquele que tem um sentimento de cuidado instintivo ou refletido pelo outro.

Em filosofia, altruísmo é a doutrina que considera o devotamento ao outro como a regra ideal da moralidade.

A pessoa altruísta deseja que o outro seja realizado e tudo faz para que esse desejo se realize, sem esperar nada em troca. A pessoa egoísta nada faz com desinteresse, está sempre buscando alguma satisfação de blindar suas próprias vantagens.

A prática do altruísmo na advocacia pode ser feita através de atitudes simples e podem fazer uma enorme diferença na vida das pessoas. A advocacia pro bono exercida por advogados, é uma ferramenta importante e necessária para ampliar o acesso à Justiça. O exercício de práticas sociais como Institutos e iniciativas ESG são também uma forma de ajudar e desenvolver pessoas e comunidades menos favorecidas, inclusive grandes bancas brasileiras já se conscientizaram da importância destas iniciativas.

Quem melhor descreveu o egoísmo foi o escritor e poeta irlandês Oscar Wilde: “egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos”. Reconheço que a OAB não é estática, mas é fundamental o exercício do altruísmo nestes novos tempos para reconhecer e formatar condutas passíveis para o pleno exercício da advocacia a fim evitar o inexorável deslinde do egoísmo: a famigerada miséria no Direito.

*Bruno Pedro Bom, advogado e publicitário, fundador da BBDE Marketing Jurídico, diretor de Marketing do IBDP. Autor da obra Marketing Jurídico na Prática, publicado pela editora Revista dos Tribunais

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