O beijo censurado

O beijo censurado

Ricardo Oriá*

09 de maio de 2021 | 10h15

Ricardo Oriá. FOTO: DIVULGAÇÃO

As comemorações de efemérides costumam, de modo geral, seguir um modelo clássico, que tem por objetivo exaltar fatos e personagens históricos mediante alguns rituais cívicos, cuja função precípua é fortalecer os laços de pertencimento dos cidadãos à nação. Entre esses rituais, podemos mencionar a emissão de selos, cédulas e moedas, lançamento de livros, realização de exposições e festas e, como forma de imortalizar o fato para as futuras gerações, a construção de estátuas e monumentos alusivos à efeméride.

Na década de 1920, com a proximidade do centenário de nossa Independência política de Portugal, eis que surgiram várias iniciativas para a edificação de monumentos, entre os quais o Monumento à Independência, localizado nas proximidades do local onde supostamente D. Pedro I lançou o brado “Independência ou Morte”. Como traço de nossa cultura, o referido Monumento, de autoria do escultor italiano Ettore Ximenes, foi inaugurado em 1922, mesmo sem estar totalmente concluído.

Outros monumentos, previstos para serem inaugurados nesse mesmo ano, só foram finalizados tempos depois. Foi o caso do Cristo Redentor, na então capital da República, inaugurado somente em 1931 pela Arquidiocese do Rio de Janeiro. Já o controverso Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, pensado para os cem anos de nossa emancipação política, ficou pronto às vésperas da comemoração do IV centenário da cidade de São Paulo.

Um dos monumentos comemorativos ao centenário de nossa Independência, inaugurado com pompa e circunstância no ano de 1922, já não existe mais na forma em que foi originalmente concebido. Trata-se do Monumento a Olavo Bilac, cuja história revela muito de nossa cultura de preservação da memória.  A iniciativa de sua construção coube aos estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, que pretendiam prestar uma homenagem póstuma ao jornalista, educador e poeta parnasiano Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918), por sua atuação em prol da nacionalidade.

Olavo Bilac foi um dos mentores da criação da Liga da Defesa Nacional, fundada em 1916 e defensor do serviço militar obrigatório, autor da letra do Hino à Bandeira e de livros didáticos de teor ufanista e patriótico. Quando Bilac morreu, em 1918, um grupo de estudantes quis homenagear o poeta com um monumento público. Como os monumentos têm como matéria-prima o bronze ou o mármore, sua construção exige muitos recursos financeiros. Fizeram, então, um financiamento coletivo para a execução do projeto e o trabalho ficou a cargo do escultor sueco William Zadig.

O enorme monumento escultórico era composto, além da estátua de Olavo Bilac ao centro, de sete figuras, que retratavam obras do autor, entre as quais se destacavam o bandeirante Fernão Dias do poema O Caçador de Esmeraldas; um pensador que lê a coletânea Tarde; a família e o militar, retratados em Pátria e Família, além da escultura Idílio ou Beijo Eterno, que é uma representação de uma poesia homônima do escritor.  O monumento foi inaugurado na Rua Minas Gerais, antigo belvedere da Av. Paulista, no dia do centenário da Independência do Brasil (07.09.1922).

Conforme relatos da imprensa local, de início, a obra foi bem recebida pela população, mesmo tendo sido realizada por um estrangeiro, em meio ao sentimento nacionalista que prevalecia à época. Segundo a historiadora Heloísa Barbuy, o jornal A Gazeta criou uma campanha contra o monumento e pediu inclusive sua demolição, dizendo que ele não tinha qualidades estéticas, além do que a estátua Beijo Eterno representava um encontro amoroso entre uma índia e um português, completamente nus, cena que não é citada em nenhum dos 59 versos do poema de Bilac.

Finalmente, em 1935, em meio aos protestos de alguns setores da sociedade e com a realização de uma reforma no local, o monumento foi totalmente removido e suas peças levadas a um depósito municipal. Algumas partes do referido monumento foram realocadas em outros pontos da cidade.

Em 1956, o então prefeito de São Paulo Jânio Quadros, que fora ex-aluno da Faculdade de Direito e conhecia a iniciativa dos estudantes na construção do Monumento a Bilac, resolveu reinstalar o Beijo Eterno no Largo do Cambuci. Os moradores do bairro acharam a peça um atentado à moral e aos bons costumes e a escultura foi retirada do local, voltando ao depósito da Prefeitura. Inicia-se o processo de “dança da estátua”, motivado pela censura de setores conservadores da sociedade paulistana.

Passaram-se dez anos e na gestão do prefeito Faria Lima a estátua Beijo Eterno foi novamente colocada no espaço público, desta vez na entrada do túnel da Avenida 9 de julho. Não tardaria para que os moradores das proximidades do local e, desta vez com o apoio de vereadores, solicitassem a imediata remoção da “estátua indecorosa”. Assim, a polêmica peça escultórica, representada por um casal desnudo, em que uma suposta índia se encontra com seios e nádegas expostos e o europeu com o pênis à mostra, foi novamente parar no depósito municipal.

No entanto, desta feita, a reação veio da parte dos estudantes do Centro Acadêmico XI de Agosto que fretaram um caminhão, invadiram o depósito da Prefeitura e furtaram a estátua de bronze de 400 quilos. A peça Beijo Eterno foi colocada defronte ao prédio principal da Faculdade de Direito, onde até hoje se encontra. O que poderia ser considerado um ato de vandalismo, na verdade, foi uma tentativa dos estudantes de se apropriar de um objeto que fazia parte de um monumento histórico e que contou com uma campanha de financiamento por eles realizada. Os alunos ainda fizeram uma ameaça: se a estátua fosse retirada do Largo São Francisco, iriam cobrir com tecidos outras esculturas de pessoas nuas que se encontravam em espaços públicos da cidade.

O centenário Monumento a Olavo Bilac já não existe mais e algumas de suas peças encontram-se em locais dispersos pela cidade. O busto de Bilac, o homenageado, está nas dependências do Comando Militar do Sudeste, no bairro do Ibirapuera, de difícil acesso à população. A peça alusiva ao bandeirante foi realocada na Escola Estadual Fernão Dias. As esculturas Pátria e Família e Tarde encontram-se, respectivamente, em uma praça no bairro do Tatuapé e no Parque da Independência, no Ipiranga. Já outras 3 esculturas do referido Monumento permanecem no depósito da Prefeitura.

Isso mostra o descaso do poder público, que não é de hoje, em relação à conservação de nosso Patrimônio Histórico. Ainda bem que um grupo de estudantes universitários teve a ousadia juvenil de resgatar parte desse Monumento e colocá-lo novamente em praça pública.

Com esse ato, os futuros bacharéis não só deram uma lição de preservação da memória ao poder público, mas mostraram também, em pleno regime militar, que toda forma de censura, seja do governo, seja da sociedade, deve ser rechaçada em prol da liberdade de expressão artística e do estado democrático de direito.

*Ricardo Oriá, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Consultor Legislativo da área de educação, cultura e desporto da Câmara dos Deputados. É autor de artigos sobre patrimônio cultural e museus e do livro O Brasil contado às crianças: Viriato Corrêa e a literatura escolar brasileira (E. Annablume, 2011). Articulista do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult)

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