O barulho enlouquece

O barulho enlouquece

Roberto Duailibi*

04 de dezembro de 2019 | 14h40

Roberto Duailibi. FOTO: Iara Morselli/ESTADÃO

Há alguns anos, quando houve aquele massacre em Las Vegas, no qual um maluco disparou tiros de fuzil da janela de seu hotel em direção a um show que estava sendo levado em terreno ao lado, escrevi um artigo com esse título. Mais tarde, durante um carnaval no Rio de Janeiro, quando uma empresa aventureira ocupou um bom pedaço da praia do Leblon para tocar funk e concorrer com os blocos que se desfaziam a metros de distância, escrevi outro artigo, perguntando quem havia autorizado tal absurdo. Barulho de carnaval tudo bem, mas funk tocado em alto-falantes de pancadão?

O problema do barulho indesejado é, provavelmente, o maior no cenário urbano atual, depois da falta de saneamento, deficiência na educação, problemas de mobilidade, excesso de poluição do ar e total insegurança das ruas. Poluição sonora, como definira meu sócio Francesc Petit, é um incômodo que já significa o maior volume de queixas nos telefones da Policia Militar. Em São Paulo, o problema chega a ser agudo, mas o serviço Psiu, da Prefeitura, criado exatamente para tentar resolver essas mazelas, é totalmente ineficiente e inoperante, existe por uma obrigação legal.

Nesse fim de semana tivemos mais uma prova de que o barulho enlouquece. Nove jovens vidas foram tiradas, um número grande de feridos ainda permanece nos hospitais. A imprensa culpou inadequadamente a ação da Polícia Militar, que atendia às queixas frequentes da comunidade de Paraisópolis. Há tempos a população se via desrespeitada pelos organizadores dos bailes funk DZ7, que infernizam a vida de todos nos fins de semana.

Para quem não sabe, Paraisópolis já hoje tem mais de meio milhão de moradores. Sua topografia tem a forma de um caldeirão, uma concha acústica, onde o ruído em uma de suas áreas repercute em toda a gigantesca extensão do terreno. Seus moradores, além dos paulistanos, há gente de todos os Estados do Brasil e de países vizinhos. São trabalhadores, pais de família, gente que têm o sagrado direito de dormir em paz nos fins de semana.

Exatamente por ser uma comunidade pobre, precisa muito mais de proteção do poder público. É por isso que, ao atender ao chamado de milhares de telefonemas desesperados, a PM montou uma operação com muitos soldados. Grandes aglomerações, grandes problemas, exigem por certo grande contingente.

Entrar numa comunidade é sempre perigoso. Não podemos nos esquecer que nessa mesma semana um sargento da PM havia sido assassinado na área, assim como, há alguns meses, uma militar da mesma PM foi sequestrada, torturada e morta por traficantes.

Os bailes Dz7 são, claro, eventos comerciais. Têm o patrocínio de marcas de bebidas e são locais de vendas de droga, movimentando milhões de reais. Realizados a céu aberto por seus organizadores, deixaram de ser pancadões” para se transformarem em paredões”, com alto-falantes poderosíssimos, que além de deixarem surdos seus ouvintes mais próximos, mexem com seus nervos de todos num raio de centenas de quilometros. Deixou de ser há muito um evento cultural, com fins recreativos e de lazer. E para a vizinhança pacífica, que adquiriu suas casas com grande sacrifício, representa uma perda enorme pela desvalorização. A vida já é bem difícil de forma natural, não é preciso adicionar mais nada que piore a situação.

Para esses organizadores, e para os patrocinadores e os fabricantes de equipamentos, nada disso importa. Tanto que depois do tumulto e das nove mortes constatadas, o barulho prosseguiu até 10 horas da manhã, numa total falta de respeito humano.

É muito injusto associar a PM com a tragédia e mais injusto ainda tentar tirar proveito político das mortes.  Mas é preciso, agora, identificar as pessoas que organizam os bailes e responsabilizá-las pelo inferno que criaram em Paraisópolis.

*Roberto Duailibi é publicitário e membro da Academia Paulista de Letras

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