O Barqueiro do Inferno e o Bilhete Único

O Barqueiro do Inferno e o Bilhete Único

José Police Neto*

09 de junho de 2020 | 12h05

José Police Neto. FOTO: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Caronte, o barqueiro da mitologia grega que transportava as almas para o inferno, era exigente quanto à cobrança do óbolo, pequena moeda de cobre usada para pagar a passagem. As almas dos infelizes que não podiam pagar ficavam condenadas a um vagar eterno entre o mundo dos vivos e dos mortos. Vem daí a antiga tradição de colocar uma moeda sobre os olhos dos mortos.

Com a perspectiva da reabertura gradual dos estabelecimentos comerciais na cidade de São Paulo, centenas de milhares de trabalhadores ficarão presos como aqueles que não conseguiram ser passageiros de Caronte. Embora a mobilidade seja parte fundamental da discussão sobre a abertura, todas as preocupações mobilizadas neste momento focam apenas “da porta para dentro” dos estabelecimentos – trabalhadores, clientes, fornecedores – só são uma preocupação e um problema quando pisam na loja, como se fossem teletransportados de suas casas para lá e vice-versa.

Estudos como o da Consultoria Bain&Co. apontam que o maior obstáculo para a contenção da epidemia na América Latina – mesmo nos países que fizeram o dever de casa com isolamentos rígidos, ao contrário do Brasil – é a dependência do transporte coletivo. Buscando explicar como o índice de contaminação não caiu na América Latina, o relatório aponta: “enquanto na Europa as pessoas que precisavam se deslocar usavam carros e até mesmo bicicletas, na América do Sul, a mobilidade estava em ônibus lotados e por distâncias mais longas”.

Há, infelizmente, uma evidência empírica bem concreta deste problema, recentemente, com o pico de mortes e contaminações na cidade provocados pela desastrada decisão de impor um megarrodízio, ampliando o número de pessoas em risco na capital paulista em transportes coletivos lotados. A reabertura sendo tratada só “da porta para dentro” reproduzirá estes números, em especial com a decisão igualmente irresponsável de concentrar o horário de atendimento em poucas horas. Muitos trabalhadores e consumidores passarão mais tempo se expondo ao vírus nos ônibus durante o trajeto do que no estabelecimento.

As empresas, já combalidas pela crise, têm poucas condições de oferecer alternativas de protocolos e ações “da porta para fora”. Mas não se duvide que aquelas com maior responsabilidade social o farão buscando alternativas de transporte seguro, mantendo em home office todos que puderem, ajudando a disseminar informações e não permitindo que os protocolos virem aqueles papéis amarelados atrás do balcão como os cartazes de que há um Código de Defesa do Consumidor disponível, que ninguém nunca consulta.

Gasto extra

A grande resposta para enfrentar os problemas “da porta para fora”, em especial a mobilidade, deveria vir do Poder Público, não só porque mantém as duas redes de transporte de massa, CPTM e Metrô, mas também porque financia generosamente com nosso dinheiro o transporte coletivo por ônibus, tão caro quanto insatisfatório. Por sinal, relatório do Tribunal de Contas do Município apontou que se gastará este ano R$ 850 milhões a mais com o subsídio do transporte coletivo do que o previsto, somando R$ 3,1 bi com esta despesa. Apenas em abril e maio, foram gastos R$ 120 milhões a mais por mês. Nesta segunda (8/6), mesmo com a recomendação da SPTrans para que os ônibus circulassem apenas com a lotação de pessoas sentadas em cada veículo, pelo menos 5% da frota rodou com mais passageiros que o indicado.

Ora, se o dinheiro estivesse sendo bem gasto, em especial para reduzir riscos no transporte coletivo, até poderíamos aplaudir essa despesa extra. Mas, sem nenhuma política de controle do distanciamento e sem nenhuma sanção para as empresas, este dinheiro só está servindo para garantir o lucro dos barões do transporte.

Ultimamente tenho usado a bicicleta, pois ela garante o mínimo de isolamento, mas o transporte coletivo faz parte da minha rotina. E quem não tem essa alternativa? Como lidar com o transporte coletivo, absolutamente essencial, sem colocar as centenas de milhares de pessoas que dependem dele em risco?

A questão sequer é o dinheiro gasto com o sistema. Se gastássemos este valor, mas o transporte coletivo tivesse uma qualidade compatível com os valores pagos pelo usuário na passagem e pelos cofres públicos com o subsídio não seria um problema no topo da agenda. Acontece que pagamos muito (e estamos pagando mais) – tanto como usuários como enquanto contribuintes – por um sistema horrível. Chegamos a sacrificar as pessoas com políticas absurdas como o megarrodízio para manter o lucro dos barões do transporte.

Vamos gastar R$ 850 milhões a mais com que base? Com qual projeto? Com qual política para efetivamente conter o risco? As respostas são frágeis, vagas entrevistas, propostas pontuais ou estapafúrdias, decisões insuficientes como a de que os ônibus só poderão circular com a capacidade nominal de passageiros sentados.

Não há nenhuma proposta de envergadura suficiente para enfrentar de fato o problema que se apresentará com a reabertura completa ou à altura da fortuna paga aos barões do transporte – muito a grosso modo, R$ 3,1 bilhões públicos mais R$ 5,5 bilhões cobrados dos passageiros. Não é possível continuar assim, é preciso desenvolver um protocolo eficiente, com sanções severas pelo descumprimento e uma estimativa de custos razoável para que a sociedade e o usuário saibam o que estão pagando e porquê.

De minha parte, tenho apontado a necessidade de medidas estruturais para resolver as questões de mobilidade a qualquer tempo, mas que ganham mais peso neste contexto de pandemia em que o transporte é um foco de contaminação.

Por um lado, venho propondo a redução das necessidades de deslocamentos sobrecarregando o sistema, com o incentivo ao home office numa ponta e o desenvolvimento das centralidades de bairro em outra. O trabalho remoto ou teletrabalho é uma realidade que se impôs com a pandemia, vencendo alguns obstáculos e provavelmente se consolidará mesmo quando a tempestade passar. O fortalecimento das centralidades locais, da atividade econômica nos bairros, é uma medida que requer um prazo maior, mas seus resultados ficarão demonstrados na reabertura. Empregos e compras de bens e serviços com menor deslocamento – passível de ser feito a pé ou de bicicleta – ganham importância.

O incentivo ao uso da bicicleta, em especial por meio da implantação da lei do BikeSP, garante que este modal de transporte altamente recomendado para pequenos deslocamentos ganhe mais destaque para melhorar a mobilidade e a sustentabilidade. Com a covid, a Europa tem demonstrado sua importância como meio de transporte a ser fortemente incentivado para reduzir riscos.

Outra proposta que apresentei e pode contribuir para desafogar o transporte coletivo é a implantação do sistema de Ônibus sob Demanda na cidade. Certamente é um benchmarking importante para o transporte coletivo, assim como os aplicativos de transporte foram para os táxis – e o custo alto e qualidade baixa do transporte coletivo paulista fazem com que, mesmo em condições normais fora da pandemia, sejam competitivas em termos de custo até com ônibus em alguns casos. Ainda que permitido de modo temporário, neste momento de risco agudo com a reabertura, o Ônibus sob Demanda poderia ser uma alternativa para tratar o problema “da porta para fora”.

A lista daquilo que pode e deve ser feito para enfrentar os desafios da mobilidade durante a pandemia e no contexto que ela deixará, em especial na reabertura crescente, é bem grande. Mas, hoje, infelizmente, somos reféns dos barões do transporte, e a Prefeitura usa nosso dinheiro só para depositar o óbolo nos olhos dos passageiros das modernas barcas de Caronte.

*José Police Neto (PSD) é vereador na cidade de São Paulo

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.