O AVC não pode esperar

O AVC não pode esperar

Sheila Cristina Ouriques Martins*

26 de julho de 2021 | 07h00

Sheila Cristina Ouriques Martins. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A pandemia pelo coronavírus é uma das maiores crises de saúde enfrentadas pelo mundo. No Brasil, um dos grandes impactos foi a desorganização no fluxo assistencial, principalmente das doenças crônicas não-transmissíveis, como o AVC e o infarto.

Durante este período crítico, houve adiamento de consultas ambulatoriais, exames e procedimentos eletivos. Equipes e infraestrutura foram redirecionados para atender pacientes a emergência. Além disso, o receio dos pacientes de se contaminarem pelo COVID-19 fez com que muitos não buscassem o atendimento de urgência nos hospitais.

No caso do AVC, a situação é extremamente preocupante, porque se trata da segunda maior causa de mortalidade no Brasil e o principal motivo de incapacidade no mundo, com consequências sociais e econômicas severas. E estudos indicam que uma em cada quatro pessoas terá a doença ao logo da vida. E, principalmente, porque o atendimento não pode esperar e o socorro imediato é condição para o melhor resultado.

É compreensível que as pessoas se sintam inseguras de procurar um hospital nesse momento, mas ficar em casa com um quadro de AVC é infinitamente mais perigoso. Se o paciente não receber o tratamento adequado a nível hospitalar, além de ficar com graves sequelas, pode ir a óbito.

Em até 4,5 horas após o início dos sintomas, por exemplo, um medicamento que dissolve o coágulo nas artérias do cérebro pode ser dado aos pacientes com AVC isquêmico, diminuindo consideravelmente as chances de sequelas e de mortalidade. Da mesma maneira, a trombectomia mecânica (cateterismo cerebral), realizada em alguns centros de alta complexidade no Brasil, pode desobstruir a circulação nos casos de AVC isquêmico graves quando o atendimento é feito em até 8 horas após o início dos sintomas. São tratamentos altamente eficazes, mas que, assim como outras medidas, dependem do rápido manejo para alcançarem os melhores resultados. A cada minuto que passa de um AVC sem tratamento, são 2 milhões de neurônios que morrem. Por isso, após qualquer sintoma de AVC, a recomendação é imediatamente procurar um hospital preparado para o atendimento (um centro de AVC), de preferência acionando o SAMU, através do 192.

Outro ponto importante é garantir acesso precoce à reabilitação. Quanto mais rápido, maiores as chances do paciente se recuperar com qualidade de vida.

Por tudo isso, é fundamental esclarecer a população que o atendimento aos pacientes com AVC durante a pandemia está garantido em centros especializados, com toda a segurança. A Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares, junto com a Sociedade Brasileira de Neurorradiologia Intervencionista, estabeleceu protocolos para o atendimento de urgência do AVC durante a pandemia, incluindo o uso adequado de ferramentas de triagem e equipamentos de proteção pessoal (para pacientes e profissionais de saúde). Portanto, não há motivos para evitar o atendimento imediato, pelo contrário.

Ações conjuntas envolvendo vários setores da sociedade são necessárias para combater o AVC, principalmente em tempos tão difíceis. Não podemos deixar de focar na prevenção, orientar sobre o atendimento agudo à doença e garantir a reabilitação. É necessário informar os brasileiros sobre o que é a doença, como preveni-la, como reconhecer seus sinais de alerta e explicar que o tratamento é tempo-dependente. Estas ações deverão ser contínuas, porque o AVC não pode esperar.

*Sheila Cristina Ouriques Martins, presidente da Rede Brasil AVC, presidente eleita da World Stroke Organization e chefe do serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento – RS

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