O autorretrato de D. Pedro II

O autorretrato de D. Pedro II

Maria de Fátima Moraes Argon e Bruno da Silva Antunes de Cerqueira*

29 de novembro de 2020 | 07h30

Maria de Fátima Moraes Argon e Bruno da Silva Antunes de Cerqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

As fontes primárias ora se revelam, ora se escondem e, ainda assim, com exame rigoroso, podem criar armadilhas, provocando enganos, falhas e, até mesmo, nos levando a erros de interpretação. Parece precipitado afirmar que a autoria do conhecido “autorretrato” de D. Pedro II seja de D. Isabel, tendo por base exclusivamente a caligrafia, uma vez que esta apresenta características da letra do imperador. A imagem está conservada no acervo particular da família.

Esse “autorretrato” foi exposto em 2013, na mostra “De volta à luz”, organizada pelo Instituto Cultural Banco Santos, em São Paulo, estando reproduzido tanto o anverso como o verso na página 57 do belíssimo catálogo da exposição, que traz textos de Pedro Corrêa do Lago, Leandro Karnal, Sylvie Aubenas, Marcus Venicio Toledo Ribeiro, Marcello Dantas e dos curadores Joaquim Marçal Ferreira de Andrade e Rubens Fernandes Junior.

Na vasta correspondência da família imperial conservada no Arquivo Histórico do Museu Imperial, encontramos vestígios de que tanto o pai como a filha se aventuraram na arte de fotografar. Conforme Bia e Pedro Corrêa do Lago apontam, na obra “Os fotógrafos do Império” (2005, p. XIV), “O próprio imperador dedicava-se à fotografia em papel nos anos 1850”. Isto levanta a possibilidade de o imperador ser o autor do conhecido daguerreótipo da Princesa D. Leopoldina e do ambrótipo das duas irmãs, ambos da década de 50, que se encontram no acervo do Museu Imperial.

Dois meses depois de assistir, em companhia das irmãs D. Januaria e D. Francisca, no Rio de Janeiro, em 17 de janeiro de 1840, à primeira demonstração da daguerreotipia feita pelo francês Louis Comte, o imperador adquiriu um aparelho, provavelmente entusiasmado com a invenção e com a possibilidade de usá-lo. Outro fato importante a ser destacado é que, segundo os descendentes do fotógrafo Peter Hees (1811-1881), D. Pedro II solicitava a sua “companhia para ir captar paisagens de Petrópolis dos seus pontos mais elevados”. Outro exemplo do “imperador fotógrafo” é o registro de D. Thereza Christina em seu diário, na manhã de Natal de 1863, no qual menciona que durante a cerimônia de crisma das filhas por D. Frei Pedro de Santa Marianna e Souza, “o Imperador tirou o retrato [da missa] e também de todo o grupo”.

Quanto a D. Isabel, parece pouco provável que, entre 1855 e 1860, tivesse conhecimento e habilidade suficientes para produzir o “autorretrato” do pai, sobretudo, levando em consideração que começou a estudar fotografia com Revert Henri Klumb somente no segundo semestre de 1861. Em bilhete escrito entre 1861 e 1864, D. Isabel solicita ao pai reagentes químicos para “tirar vistas” do palácio: “Se nós podermos [pudermos]. O que acho que sim. Não se ria de mim. I. C. [Isabel Christina]”.

Outro ponto de reflexão é que ainda não são conhecidas fotografias da lavra de D. Isabel nos acervos de seus descendentes, oriundos da coleção da família iniciada por D. Pedro II com a aquisição dos daguerreótipos produzidos por Louis Comte, em 1840. Como se sabe, poucos meses antes de morrer, no exílio, D. Pedro doou à Biblioteca Nacional a Colecção D. Thereza Christina Maria — composta de aproximadamente 25 mil fotografias reunidas ao longo do tempo por ele, pela imperatriz e pelos Condes d’Eu. O restante do arquivo fotográfico era composto, sobretudo, de retratos da intimidade familiar e permaneceu com D. Isabel.

Com a morte de D. Isabel em 1921 e, sobretudo, com a do Conde d’Eu, em 1922, o acervo se dispersa. A maior parte ficou sob a guarda do primogênito, D. Pedro de Alcantara, e outra com D. Maria Pia, viúva de seu irmão, D. Luiz.

Em 1940, morre, em Petrópolis, D. Pedro de Alcantara e, em 1951, sua viúva, D. Elisabeth, sendo o arquivo novamente desmembrado entre os filhos do casal. D. Pedro Gastão compôs a Coleção D. Pedro de Orleans e Bragança, com mais de 1.000 fotografias; D. João Maria, a Coleção D. João de Orleans e Bragança, com 781 imagens, hoje depositada no Instituto Moreira Salles, em regime de comodato, pelo seu filho D. João Henrique.  Mais recentemente, em 2008, deu-se publicidade ao conjunto de fotografias que estava com a filha caçula, D. Thereza Maria Theodora de Orleans e Bragança e Dobrzensky.  É de se supor que as outras duas filhas, D. Isabel (Condessa de Paris) e D. Francisca (Duquesa de Bragança) tenham herdado parte do acervo dos pais, mesmo que em menor monta.

Conforme ressaltamos no livro Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil (2019), a rigor, não pode existir uma coleção com o nome de D. Isabel, uma vez que a mudança de titularidade nos arquivos de família geralmente é um impeditivo para identificar a quem pertenceu um determinado conjunto de documentos, não sendo possível, portanto, distinguir o que era próprio do pai e o que era da filha.

Na hipótese de haver uma “Coleção Princesa Isabel” forçosamente teriam de ser reunidos todos os acervos fotográficos distribuídos entre os diversos ramos dos Orleans e Bragança, o que evidentemente jamais ocorreu e com toda probabilidade nunca ocorrerá.

*Maria de Fátima Moraes Argon, historiadora e arquivista, é pesquisadora aposentada do Ibram e foi a responsável pelo Arquivo Histórico do Museu Imperial por mais de 20 anos. É presidente do Instituto Histórico de Petrópolis

*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, historiador e advogado, é indigenista da Funai em Brasília. É fundador e presidente do Instituto Cultural D. Isabel

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.