O aumento dos transtornos mentais durante a pandemia e seus desdobramentos na população de trabalhadores

O aumento dos transtornos mentais durante a pandemia e seus desdobramentos na população de trabalhadores

Érika Abritta*

13 de junho de 2021 | 06h00

Érika Abritta. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não é novidade afirmar que a pandemia acarretou problemas de saúde em diferentes níveis, inclusive não relacionados à Covid-19. No entanto, ao contabilizar o quanto isso impactou a vida dos trabalhadores, fica evidente a dimensão do problema e de novas questões que surgiram.

Para um número significativo de pessoas em idade ativa para o mercado de trabalho, seja por mudanças comportamentais ou laborais, a pandemia resultou em um aumento da incapacidade para o trabalho por adoecimento. De acordo com informações do Ministério da Economia, em 2020, foram concedidos 26% mais benefícios previdenciários do que em 2019. Isso quer dizer que mais dias de trabalho foram perdidos por motivo de doença. No ano passado, foram cerca de 576 mil afastamentos pelo INSS.

Mudanças de comportamento e capacidade de adaptação dos indivíduos relacionam-se ao desenvolvimento ou agravamento de doenças. Nesse sentido, o adoecimento por problemas na saúde mental dos trabalhadores merece destaque.

De acordo com o banco de dados da 3778, na comparação entre os anos de 2019 e 2020, o número de dias de afastamento por transtornos mentais aumentou 47% para cada mil funcionários. O aumento chama a atenção por ser superior ao observado entre as doenças osteomusculares – cerca de 36% – grupo bastante significativo no quadro de benefícios do INSS, tanto na base da 3778, quanto na base da instituição.

O processo de afastamento tem desdobramentos e impactos em diferentes esferas: o trabalhador precisa agendar perícia no INSS e aguardar o recebimento do auxílio; a empresa perde força de trabalho e o poder público tem aumento das despesas relacionadas, além de precisar adequar sua capacidade de atendimento. Ou seja, tem-se uma reação em cadeia com possíveis sequelas que ainda estão sendo medidas.

Segundo a pesquisa “ConVid Comportamentos”, realizada pela FIOCRUZ em parceria com a Unicamp e a UFMG, durante a pandemia, 34% dos fumantes aumentaram o consumo de cigarros ao dia; cerca de 17% das pessoas passaram a ingerir mais álcool; e o tempo gasto em TV, computador e tablet aumentou em mais de uma hora por dia. Enquanto isso, o percentual de pessoas que realizam atividade física semanal reduziu de 30,4% para 12,6%.

Todos esses novos hábitos, vivenciados por uma população de adultos jovens em plena capacidade de trabalho, junto às incertezas e inseguranças do momento, contribuíram para o aumento dos afastamentos. Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho) as interações entre ambiente profissional, conteúdo do trabalho, condições organizacionais, entre outras, podem influenciar a saúde do colaborador.

Por isso, as práticas de acompanhamento da saúde dos trabalhadores dentro das organizações são, e continuarão sendo, cada vez mais necessárias para evitar o adoecimento, otimizar os tratamentos e, assim, reduzir os impactos dos afastamentos para os indivíduos, organizações e toda a sociedade.

*Érika Abritta é diretora de gestão de afastados e perícias médicas do Grupo 3778

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