O atual conflito Israel-Palestina: tensões, questões geopolíticas e religiosas

O atual conflito Israel-Palestina: tensões, questões geopolíticas e religiosas

Aline Maria Thomé Arruda*

25 de maio de 2021 | 14h05

Aline Maria Thomé Arruda. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Na quinta-feira, dia 20 de maio de 2021, o Hamas, que controla Gaza desde 2007, e o Estado de Israel implementaram o cessar-fogo dos confrontos que atingiram a região nos últimos dias. Entretanto, na sexta-feira dia 21, foi registrado mais um embate entre a polícia israelense e palestinos na Esplanada das Mesquitas de Jerusalém Oriental, em Al-Aqsa. Este é o dia em que, semanalmente, muçulmanos realizam sua oração presencialmente na mesquita, próximo ao período de almoço. A polícia israelense afirma que recebeu ataques de uma multidão, que comemorava a vitória no conflito, e controlou-a usando gás lacrimogêneo além de granadas de efeito moral. Na segunda-feira, dia 24/05, próximo a Sheik Jarrah, na mesma região do bairro da capital palco de disputas dos últimos dias, ainda houve um ataque de um jovem palestino a duas pessoas com uma faca, dentre eles um soldado israelense. O rapaz foi morto pelas forças de segurança israelenses.

Aparentemente, o cessar fogo será mantido, porém, esse clima de tensão em maior ou menor escala é presente na região há mais de meio século. Em 1948, após diversos esforços, especialmente pelo movimento sionista, que se expandiu a partir do século XIX, nasceu o Estado de Israel, a pátria dos judeus. A oficialização foi fruto do apoio britânico que descolonizou o território à época e da concentração de um número significativo de judeus refugiados do holocausto no espaço geográfico, terra da qual judeus herdeiros de Abraão foram expulsos séculos antes. Porém, por se localizar cercado por várias outras nações outrora parte do Império Turco-Otomano, majoritariamente árabes, embora com constituições e histórias bem diversas, as terras passaram a ser ocupadas por palestinos nesse período. Mesmo no momento de maior presença judaica no século XX, esses representavam cerca de um terço do número de palestinos que lá viviam. Por esse motivo, desde a criação do Estado de Israel, a luta palestina com o apoio de vários países vizinhos pelo território é constante e as tensões assim como os conflitos mais graves não param de acontecer.

Acordos propostos pela Organização das Nações Unidas e por outras iniciativas internacionais destinaram duas partes do território aos palestinos, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Geograficamente separadas e geradora de uma grande insatisfação palestina sobre a configuração, a situação se agrava ainda mais após 1967, com a Guerra dos Seis Dias, em que o Estado de Israel passa a controlar grande parte de ambos os espaços. Após esse marco, sucessivamente, várias ações ainda foram feitas pelo governo israelense ocupando cada vez mais espaços nos pequenos e já sofridos territórios palestinos estabelecendo assentamentos judaicos. Mais grave ainda do que essas disputas é a ocupação da cidade de Jerusalém, historicamente “a “Terra Santa” do cristianismo e a “Terra Prometida” do judaísmo e, depois, em um sentido secular, o “lar nacional” judeu sionista (PFOH, 2014), e a cidade para onde Maomé realizou sua última fuga em vida e subiu aos céus, portanto, sagrada para os muçulmanos.

O mais recente confronto que durou 11 dias no mês de maio de 2021, deixando, pelo menos, 243 pessoas, incluindo mulheres e crianças, mortos do lado palestino e 12 do lado israelense, incluindo duas crianças, teve seu estopim justamente em Jerusalém após a tentativa de despejo de famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah pela justiça israelense. A resposta foi um ataque palestino, pelo grupo Hamas, com foguetes e a tréplica foram vários ataques com mísseis pelo Estado de Israel. Os confrontos se estenderam por Gaza até chegarem aos tristes números de mortos e feridos e ao cessar-fogo, mediado pelo Egito, ser negociado e passar a valer. Entretanto, ambas as partes reivindicam vitória.

Da parte palestina, o Hamas apoiado pelo partido político e grupo armado Hezbollah, libanês, muitos foram às ruas de Gaza na sexta-feira comemorar a vitória da resistência palestina. Declarações pela liderança do Hezbollah colocam que foi uma “rodada heróica de confronto” e ainda que “A resistência palestina … estabeleceu novas regras que abrirão o caminho para a grande vitória que se aproxima”. Por outro lado, as declarações do primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu são a de sucesso das operações aéreas realizadas, segundo ele, contra alvos estratégicos ligados ao grupo Hamas e com esforço máximo para não atingir civis. Ainda na sua versão, mais de 200 militantes, incluindo 25 altos funcionários, foram mortos em ataques seus. Outros dados ainda serão aos poucos divulgados pelo governo de Israel. Entretanto, segundo o Ministério da Saúde palestino em Gaza diz que 66 crianças e 39 mulheres.

A comunidade internacional e o governo dos EUA entendem que uma garantia de perenidade do cessar-fogo é importante no momento. Joe Biden, inclusive, declarou que a solução para os conflitos entre as partes deve ser baseada em dois Estados. Há, ainda, uma promessa de liderar uma mobilização internacional para ajudar a reconstruir Gaza. Na terça-feira, 25/05, está prevista a chegada à região do secretário de Estado estadounidense, Antony Blinken, com encontros agendados com os chefes de Estado de Israel e da Autoridade Palestina, assim como com aliados estratégicos da região, o Egito e a Jordânia.

Esse é um dos conflitos mais sensíveis do sistema internacional e continua representando uma das questões de mais difícil solução, uma vez que além dos interesses das partes envolvidas, alianças com grandes nações com poder como os EUA e potências regionais como os vizinhos da região do oriente médio como Irã, Arábia Saudita e Egito passam a envolver muitos outros em seus embates. Não é o primeiro esforço estadounidense ou dos países vizinhos em mediar a paz na região. Muitos fatores geopolíticos estão em jogo, além das questões religiosas, especialmente e justamente por elas, no que diz respeito à Jerusalém que é considerada como o local de mais difícil solução das disputas.

*Aline Maria Thomé Arruda, doutora em Ciências Sociais e professora do Ceub

Referências:

PFOH, Emanuel, y  “Geografías imaginadas, práctica arqueológica y construcción nacional en Israel/Palestina.” Cuadernos de Antropología Social  , no. 39 (2014):39-62. Redalyc, disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=180932448002, acesso em 21/05/2021.

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57202019

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57149552

https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2021/05/4926181-precisamos-de-uma-solucao-baseada-em-dois-estados-diz-biden-sobre-israel-e-palestina.html

https://www.istoedinheiro.com.br/tensao-e-violencia-entre-israelenses-e-palestinos-a-poucas-horas-da-chegada-do-chanceler-dos-eua/

https://www.google.com/amp/s/ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2021-05-21/faixa-de-gaza-palestina-israel-conflito-bombardeio-cessar-fogo-assista-video.html.amp

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