O anarquista pós-moderno

O anarquista pós-moderno

José Renato Nalini*

21 de novembro de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Crescemos tão impregnados de respeito à autoridade, a qualquer autoridade, que sequer imaginamos possam existir anarquistas. Entretanto eles existem.

Não se confunda o anarquismo com a ideia pré-concebida de anarquia. Tendências anarquistas caracterizavam os primeiros cristãos. Eles tinham razão para não se submeter à autoridade terrena. Foram testemunhas presenciais da História, cuja contagem teve reinício coincidente com o nascimento de Cristo.

Alguém que fazia milagres, que hostilizou os hierarcas da época, que conviveu com pecadores e desprezou os poderosos, poderia ter sido mero profeta, não tivesse ressuscitado ao terceiro dia.

Acreditavam os convertidos que a volta de Jesus, para redimir de fato a humanidade e inaugurar o fim dos tempos estava próxima. E passaram a viver em comunidade, repartindo os bens essenciais à convivência digna, porém frugal. Desinteressando-se pelo trabalho.

Foi necessário que Paulo – que não conviveu com Cristo – viesse colocar a ordem humana àquilo que poderia ter sido um anarquismo saudável. Porque cristão. E ele conseguiu convencer os irmãos de que “toda autoridade provém de Deus”. Daí a necessidade de se observar também a ordem temporal, laica e sempre imperfeita, porque é obra humana.

O anarquismo como ciência tem adeptos e, em geral, é típico aos rebeldes. Um deles é Michel Onfray, que em seu livro “A política do rebelde”, confessa conviver com sua fibra anarquista “desde os meus tenros anos”.

De onde surgiu a rebeldia? De um internato para onde foi mandado por seus pais aos dez anos. Ali sentiu o que era a mão levantada contra ele, as humilhações que prosseguiram no trabalho e no serviço militar. Por isso ele desenvolveu a revolta e a insubmissão. Confessa: “A autoridade me é insuportável; a dependência, intolerável; a submissão, impossível. As ordens, as chamadas, os conselhos, as solicitações, as exigências, as proposições, as orientações, as injunções me infeccionam, me apertam a garganta, me contraem o ventre”.

Quantos mais não enfrentam situação idêntica ou, ao menos, análoga?

A juventude rebelde não é a menos inteligente. Ao contrário, é aquela que enxerga a falácia do discurso preponderante. Prega-se o ideal da subserviência e abomina-se a inteligência.

Algo que merece a atenção da lucidez pátria é o fenômeno da criminalidade, cada vez mais intensa e cada vez a contaminar mais cedo a juventude que o sistema desperdiça. O que se oferece a um adolescente em termos de vida digna, senão o aprendizado na senda da obediência sem discussão e sem ressalvas?

Houve tempo em que o “magister dixit” e o olhar paterno resolviam os problemas de inadequação de conduta. Hoje, as redes sociais exibem a complexidade do mundo, a irracionalidade dos comandos destituídos de fundamento, o discurso vazio de quem persiste a indicar caminhos para um sucesso cada vez mais intangível.

Os submissos são aqueles que não percebem que no final da estrada não haverá o cumprimento das promessas feitas na palavra vã: o diploma abre portas! Já não é assim! Infelizmente, uma escola anacrônica e superada não assegura sobrevivência digna para o melhor dos estudantes. Os mais atilados entre os moços, têm exata noção disso. A imensa maioria não.

É urgente encontrar estratégias para não expelir da sociedade esses rebeldes que enxergam longe. Repudiados pelo sistema, são alvo fácil de outros polos de influência. São recrutados pelas facções criminosas e lá encontram o que a sociedade da licitude não consegue oferecer. Se houver compreensão e acolhimento por parte de educadores e lideranças hígidas, deles se extrairá natural engajamento em causas mais saudáveis do que a disseminação do uso de entorpecentes.

Aprisioná-los é contraproducente. Ficarão ainda mais rebeldes. E como são inteligentes, reforçarão a banda do mal.

Uma tonalidade anarquista no comportamento de uma parcela da juventude brasileira não é o suprassumo do mal. Insinuou-se que o atual governo teria uma tendência anarco-liberal, com ênfase numa bem vinda redução da estrutura estatal.

Quem não se aperceber de que é preciso uma alteração de rotas no diálogo entre as gerações estará empurrando a mocidade para as teias da delinquência. Onde, paradoxalmente, deixarão  os mais promissores de ser rebeldes, para serem submissos a uma autoridade nefasta.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.