O ambiente de inovação e tecnologia pós-pandemia

O ambiente de inovação e tecnologia pós-pandemia

Renata Horta*

26 de abril de 2020 | 07h00

Renata Horta. FOTO: PIERO DÁVILA

As grandes crises, especialmente de impacto global, tem o poder de gerar transformações sociais profundas em uma velocidade muito grande. Temos visto uma rápida “digitalização” do mundo e todos os pontos de resistência ao impacto do uso da tecnologia estão sendo arrefecidos pelas necessidades de hoje. Trabalhar, estudar, socializar e entreter; tudo mudou. A crise do coronavírus está acelerando a adoção de uma infinidade de tecnologias e ferramentas. Muitas delas estão se consolidando neste momento e sua adoção poderá ser permanente até o final da pandemia. O impacto no redesenho do mundo, dos negócios e de nossas vidas será grande.

Analisei o que está acontecendo, observando os desafios tecnológicos nas principais áreas e resolvi listar alguns para refletirmos sobre o que poderá fazer sentido em um mundo sem pandemia.

Uma nova relação com a saúde

É difícil não começar falando da saúde, já que ela é a mais afetada neste período. O sistema tradicional já estava à beira de um colapso antes mesmo do coronavírus. As relações entre médicos, pacientes, companhias particulares e sistema público já estavam sensibilizadas e precisavam de uma transformação. Agora isso só ficou mais explícito. Somado a isso, temos a nossa relação com a crise, uma vivência massiva de dúvida e ansiedade, que nos faz ter uma nova certeza: a saúde coletiva impacta a minha saúde.

Desde (re)aprender a lavar as mãos a se preocupar com a qualidade do sistema de saúde no geral, passamos a ver saúde de forma completa e articulada: saúde física, emocional, individual e coletiva. O sistema que antes era centralizado no hospital, exige a expansão e descentralização. O modelo de atendimento médico remoto faz parte dessa expansão no sistema tradicional. Nos hospitais, a gestão de leitos, de time e da vida útil dos aparelhos está incentivando a inteligência artificial, conectividade e previsibilidade de forma intensiva

Renascimento da ciência

Existe um abismo entre a universidade e o mercado no Brasil. De um lado, as novas tecnologias desenvolvidas nas universidades quase nunca se transformam em produtos, serviços ou novos negócios. De outro, muitas empresas não possuem departamentos de P, D & I.

A ciência se torna nossa grande referência, nosso porto seguro e nossa esperança. A expectativa nesse ambiente está impulsionando a colaboração no compartilhamento de dados, ferramentas de gestão de projetos de pesquisa mais colaborativos e dinâmicos, uso da inteligência artificial e tecnologia da informação como forma de acelerar análises, simulações etc.

Valorização da experiência física

Como promover bem-estar e a socialização em meio a tantas restrições? As restrições pelo distanciamento físico promovem os meios digitais como canais de entrega de experiências de bem-estar. Eles se destacam nesse ambiente, podendo promover o acesso aos idosos ou na população de baixa-renda, uma camada tipicamente menos alcançada pela maioria das práticas de bem-estar.

Técnicas de promoção do autocuidado, valorização do ambiente doméstico; canais de aproximação de pessoas para interação através da empatia e compartilhamento de sentimentos também estão criando um espaço que tende a se fortalecer no mundo pós pandemia. Um exemplo disso são grupos coletivos de enfrentamento de uma doença ou experiências traumáticas.

Novos formas de entretenimento

Novos tipos de relacionamento virtual tem acontecido, fenômenos como o de milhões de pessoas assistindo lives de seus artistas ou gurus favoritos vão ser cada vez mais comuns. Esses artistas estão se organizando e criando novas formas de entrega de suas experiências. Ainda faltam ferramentas que possibilitem comercializar e financiar essas experiências em médio e longo prazo, mas a oportunidade surgiu para atingir novos públicos.

Comunicação precisa e segura

Estamos vendo as consequências positivas (ou negativas) de uma população bem informada (ou mal informada). Quando a população entende os benefícios ou necessidades, ela pode ser capaz de tomar suas próprias decisões de cuidado e prevenção. Um grande esforço mundial está sendo feito para que a informação certa e confiável chegue de forma segura e precisa – a informação certa, no tempo certo, para quem mais precisa dela, utilizando uma combinação de diferentes tecnologias e ferramentas.

Junto a isso, a curadoria de informações e o combate às fake-news se tornam valores básicos. As fake-news já se provaram uma ameaça à segurança pública, às relações internacionais, à saúde. Tecnologias de combate à informação falsa em são cada vez mais demandadas.

Gestão pública digital

Nós já temos ferramentas para gerar uma gestão pública que seja inteligente, focada em dados, real, transparente e preditiva. Para isso, tecnologias de mineração de dados, inteligência artificial e comunicação são necessárias. Precisamos ver a relação entre saúde e mobilidade, segurança e economia, educação e saúde, entre outras.

Com a valorização de uma gestão pública mais preparada e profissional, essas tecnologias que existem ganham força para criar uma máquina pública mais otimizada, eficiente e barata.

Educação a distância

As escolas estão se debruçando em novos processos, entrando nas casas, entendendo as rotinas e os pontos de contato de uma nova experiência de educação. É uma fase sofrida para professores e alunos que ainda não estavam preparados, mas referências de sucesso estão sendo disseminadas e novas estão surgindo. Este setor entenderá a riqueza dos indicadores que podem ser gerados em suas atividades (mesmo quando elas voltarem para o mundo offline). Quando voltarmos ao “novo” normal, teremos uma mistura de ferramentas do mundo offline e online convivendo juntas com muito mais eficiência.

Quando se migra para um cenário tão extremo rapidamente, vemos que as ferramentas precisam evoluir para uma nova geração de ferramentas de EAD, adaptada a outras idades, contextos e processos de educação. Essas ferramentas devem considerar processos cada vez mais autônomos, que facilitem o trabalho operacional do professor, e prevejam processos de colaboração entre escolas, conectando alunos de diferentes regiões ou países.

Desigualdade achatada

A pandemia nos deixou mais sensíveis às interações sociais, econômicas e os impactos no coletivo. Essa aproximação com elementos afetivos é capaz de gerar uma marca importante que abre espaço para um achatamento da desigualdade. Essa sensibilidade pode ser revertida em um aumento dos investimentos de impacto, desenvolvimento de tecnologias frugais, modelos mais ousados de microcrédito, soluções de educação complementar (como educação e gestão financeira), novos tipos de trabalho e maior valorização do trabalho realizado por essa população.

Empregadores se viram mais do que nunca responsáveis pelo sustento de famílias inteiras e com isso se aproximaram dos seus empregados. Empregados entenderam as dificuldades das escolhas por trás de quem emprega e com isso valorizaram mais o que possuem.

Tudo isso é uma leitura do ambiente feita com base na nossa experiência no mundo da inovação e do comportamento. Sabemos que o cenário ainda é muito incerto e confuso, mas nos posicionamos com muita convicção de que algumas mudanças não tem volta, tal qual sugere esta frase de Albert Einstein: “A mente que se abre para uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Este momento está mais do que nunca nos abrindo a novas ideias, está nos obrigando a experimentá-las. E você, como acredita que será o seu ambiente de inovação e tecnologia pós-pandemia?

* Renata Horta é sócia-fundadora e diretora de Produto da Troposlab

Tudo o que sabemos sobre:

Artigocoronavírus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.