O agronegócio e as recuperações judiciais

O agronegócio e as recuperações judiciais

Vivaldo Lopes*

02 de abril de 2019 | 06h00

Vivaldo Lopes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Alan Greespan, o mitológico presidente do Federal Reserve (FED), o Banco Central americano, utilizou pela primeira vez – em meados dos anos 90 – o termo “exuberância irracional” para descrever a bolha econômica surgida no mercado de capitais com o estratosférico crescimento das ações das jovens empresas de internet e tecnologia. Ele usou o termo para afirmar que as empresas não tinham sustentabilidade financeira na mesma proporção da fama que obtiveram em curto espaço de tempo. O tempo deu razão a Greespan.

Em seminários, encontros e colóquios com empresários, analistas econômicos, analistas políticos e estudantes, uma pergunta tem sido recorrente: qual a razão de tantas empresas ligadas ao agronegócio entrarem em recuperação judicial, se este setor é a locomotiva da economia do Estado, o que mais cresce e o que mais acumula riquezas?

É preciso ressaltar que grande parte das empresas que pediu recuperação judicial tinha como atividade principal o agronegócio, fornecia insumos para o setor ou localizava-se em cidades que floresceram em torno do agro. Algumas, inclusive, de grande porte, consideradas gigantes do setor.

É inquestionável a força do agro na atividade econômica do Estado. Estudo da Fundação Getúlio Vargas, confirma que a cadeia produtiva do agro responde por 50,6% do PIB do Estado. Dados da economia dos estados divulgados pelo IBGE indicam que, no período de 2002 a 2016, o PIB de Mato Grosso teve crescimento médio anual de 4,7%, enquanto o PIB do Brasil no mesmo período cresceu anualmente 2,5%. Nesse período, a atividade agropecuária apresentou crescimento médio anual de 5,9%.

Nos anos de 2005 e 2006, o agro sofreu a maior crise de sua história recente ocasionada por fatores como elevado endividamento, baixa liquidez, aumento dos custos financeiros, redução da demanda mundial e queda de preços. De 2007 até 2018 o setor viveu período de bonança econômica, com aumento mundial do consumo de commodities agrícolas, puxado pela China, safras recordes, bons preços internacionais e farta oferta de crédito subsidiado. Nesse período, consolidaram-se grupos empresariais locais e surgiram novos. Investimentos em pesquisas aplicadas, capacitação do capital humano e intercâmbios internacionais aumentaram exponencialmente a produtividade do setor e elevaram a competitividade das empresas a ponto de torná-las mais competitivas que as dos setores industrial e de serviços. Deixaram de ser simples fazendas e passaram a ser empresas globais. Além disso, o agro teve suas terras, seu principal ativo, supervalorizadas no mesmo período de tempo. Entre 2007 e 2018, de longe, as terras agrícolas foram os ativos que mais valorizaram em Mato Grosso.

Mesmo nesse cenário econômico tão favorável, proporcionalmente, o agro é setor que mais apresentou pedidos de recuperação judicial. Pode ser apenas a depuração natural que o mercado faz. Preserva os mais criativos e competentes e elimina os menos competentes ou que não acompanharam as atualizações tecnológicas e de governança que um mundo tão competitivo está a exigir. Pode ser também que o segmento tenha vivido seu período de exuberância irracional e o choque de realidade está demonstrando que as bolhas econômicas têm prazo de validade. Como aliás, demonstra a história econômica, desde a primeira bolha, a das tulipas holandesas até a imobiliária americana de 2008.

*Vivaldo Lopes é economista, pós-graduado em MBA e Gestão Financeira Empresarial pela FIA/USP

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