O acaso vai nos proteger

O acaso vai nos proteger

Eloy Ojea Gomes*

05 Novembro 2018 | 06h00

Eloy Ojea Gomes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Dia desses, chovia.

Corria os canais de televisão quando, por acaso, deparei-me com um documentário sobre Heráclito Fontoura Sobral Pinto.

Heráclito foi advogado de Luis Carlos Prestes durante o governo militar.

Cristão fervoroso, defendeu um ateu convicto.

Isso já dá ideia da grandeza de Heráclito Sobral Pinto.

Fez brilhante defesa dele e de outros durante o regime militar.

Não direi que foi o maior advogado brasileiro de todos os tempos.

Conhecendo a história de Rui Barbosa, Evandro Lins e Silva, Waldir Troncoso Peres e René Ariel Dotti, dentre outros, seria o acaso do excelente documentário assistido sugestionando minha opinião.

Serei incontroverso: Sobral Pinto foi um grande brasileiro.

E contarei por quê.

Nos idos de 1960 houve uma movimentação para a instalação de uma ditadura comunista no País.

Os militares se organizaram para debelar essa revolução.

Foram exitosos.

A isso se seguiu um período de exceção.

Nenhuma novidade até aí.

O fato é que Sobral Pinto apoiou o golpe militar e tempos após se colocou ferrenhamente contra o governo de caserna.

Questionado diretamente numa entrevista televisiva sobre uma possível contradição, o acaso permitiu que a grandeza do homem se revelasse mais uma vez.

Sobral Pinto explicou ao repórter que soubera da tentativa de instalação de uma ditadura comunista no País.

Condenou-a com vigor.

Em seguida, narrou ter sabido dos propósitos militares.

Questionou-os direta e inacreditavelmente.

Sobral Pinto era um Titã.

Os militares prometeram-lhe restaurar a legalidade democrática, e devolver o governo ao povo, nada mais.

Sob essa promessa, Sobral Pinto apoiou os militares.

O tempo passou, e nada de se devolver o governo ao povo.

Sobral Pinto percebeu que essa demora não era obra do acaso.

Traída a confiança – sua e da Nação – Sobral Pinto se voltou firmemente contra o regime ditatorial de direita.

Sobral Pinto não apoiava ditaduras, de esquerda ou direita.

O acaso não me agraciou com a majestade de Sobral Pinto.

Mas nada me impedia de absorver, pelo exemplo, a lição de coerência, equilíbrio, firmeza e compromisso com a Nação de um homem virtuoso.

Enquanto assistia ao documentário, foi inevitável a associação com o momento presente.

Num período de profunda divisão ideológica fraterna em que a rotulação a um dos extremos é imposta em qualquer discussão, seguirei o exemplo de Sobral Pinto: o equilíbrio.

Repilo ambos os polos.

Tenho a firme convicção de que a maioria dos brasileiros pensa assim também.

O povo brasileiro é bom por natureza.

Não há patrício, em sã consciência, favorável a retrocessos sociais.

Inaceitáveis, sim, são os excessos que hoje permeiam a sociedade.

E apenas eles.

Eu quero somente organizado progresso, como estampado em nossa bandeira.

Foi com essa convicção e sob esse compromisso que elegi um presidente.

E se ele, por conduta no exercício do mandato, trair a confiança depositada, Sobral Pinto já ensinou o que fazer.

Mas se você não pensa assim, tudo bem.

Estarei responsavelmente vigilante ao teu lado, da mesma forma.

Mas eu tenho fé.

O acaso é brasileiro.

*Eloy Ojea Gomes, promotor de Justiça do Estado de São Paulo

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