O Abaporu da era digital

O Abaporu da era digital

Marcelo Lorencin*

20 de setembro de 2019 | 04h30

Marcelo Lorencin. FOTO: DIVULGAÇÃO

Recentemente, tive o prazer de contemplar a magnífica obra “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Embora toda sua importância histórica, como protagonista da criação do Movimento Antropofágico, atentei-me apenas à simbologia da imagem, pela simples crítica ao homem daquela época (1928).
A obra retrata um homem com pés e mãos grandes, reforçando o excessivo trabalho braçal, e pouca intelectualidade, representada pela cabeça pequena. Durante minha visita fiquei imaginando como a artista faria a versão do Abaporu nos dias de hoje.

Talvez, hoje, essa mesma obra seria representada por mãos e pés pequenos, visto o menor trabalho braçal, cabeça pequena e dedos grandes, como crítica aos efeitos da era tecnológica na formação dos jovens. Outra hipótese seria um ser humano com duas cabeças de tamanhos diferentes. A pequena simbolizaria o homem e a grande, a inteligência artificial, que tanto nos aterroriza quando pensamos no futuro do trabalho no mundo.

Confesso que saí de lá intrigado, o que me fez refletir sobre meu último artigo, “A tecnologia a favor da vida”, inspirado na escultura “Self Made Man”, de Bobbie Carlyle, que mostra a figura de um homem se esculpindo e se reinventando para o futuro, através da força interior e da inteligência. A partir disso, pensei em como podemos lapidar o nosso futuro, usando a tecnologia em favor da humanidade.

Ao contrário do que muitas pesquisas mostram – tendência ao isolamento e menor intelectualidade – a tecnologia pode transformar as pessoas. Um novo estudo da empresa de pesquisa de mercado Euromonitor International revela as principais tendências de consumo que surgem em 2019, visto o novo comportamento do ser humano.

O estudo aponta que, na era da acessibilidade, os consumidores estão ficando mais inteligentes: todos são “especialistas” e autossuficientes. Em países em desenvolvimento, eles estão reavaliando seus hábitos de consumo, abandonado o materialismo exagerado e buscando simplicidade, autenticidade e individualidade.

A transformação dos meios digitais e da tecnologia, que na última década evoluiu de “facilitador da comunicação” à criação de novas e multidimensionais formas de interação, vai continuar a criar novas experiências coletivas e moldar a maneira pela qual consumidores se conectam e colaboram.

Ainda segundo a pesquisa, indústrias já estão se transformando para oferecer soluções e opções virtuais, como as áreas médica e a do Direito. Os trabalhos e interações virtuais, onde será possível trabalhar e colaborar em equipe, mesmo à distância, serão cada vez mais comuns. Não há espaço para falta de transparência. Qualquer erro é imediatamente relatado e compartilhado.

Essas questões são alguns exemplos de como a tecnologia pode ser utilizada em nosso favor, ao invés de criar barreiras. Cabe a nós, líderes, desenvolvedores e usuários de tecnologia, potencializar e aproveitar toda esta grande revolução digital. Vamos pensar na tecnologia como complemento para a expansão dos nossos horizontes, conduzindo-a de forma mais humana e feliz, esculpindo assim um futuro promissor para nossa humanidade, representada, quem sabe, por um Abaporu, com uma grande cabeça.

*Marcelo Lorencin é presidente da Shift, empresa de Tecnologia da Informação voltada para medicina diagnóstica

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