O 23º

O 23º

Dos 23 vereadores da Câmara de Mauá, na Grande São Paulo, apenas um, o petista Marcelo Oliveira, não é alvo da Operação Trato Feito, deflagrada nesta quinta, 13, pela Polícia Federal, que em ação inédita vasculhou os gabinetes de todos os outros 22 parlamentares supostamente ligados a um mensalão de R$ 500 mil que abastecia também o governo Átila Jacomussi (PSB), prefeito preso

Julia Affonso

13 Dezembro 2018 | 16h41

Marcelo Oliveira. Foto: Site Marcelo Oliveira

A Câmara de Vereadores de Mauá, na Grande São Paulo, tem 23 vereadores e foi alvo nesta quinta, 13, de uma devassa sem precedentes em sua história. Logo cedo, equipes da Polícia Federal na Operação Trato Feito vasculharam os gabinetes de 22 dos 23 parlamentares da Casa sob suspeita de ligação com esquema de propinas e mensalão de R$ 500 mil instalado no governo Átila Jacomussi (PSB), prefeito de Mauá preso por ordem judicial. Um único vereador, o 23.º, escapou à malha fina da PF: o petista Marcelo Oliveira.

Em entrevista ao Estado, o parlamentar afirma que nunca lhe foi oferecido nada e se disse surpreso. “Eu convivo com eles (seus colegas de Legislativo) todos os dias.”

A Câmara de Mauá está de recesso. A última sessão do ano foi no dia 4. Os vereadores devem retornar às atividades em fevereiro.

Trato Feito põe Átila Jacomussi e seu ex-secretário de Governo João Eduardo Gaspar no topo de uma suposta organização criminosa abastecida com propinas de um grupo de nove empresas que detinham o monopólio de contratos da administração pública. Em maio, Átila e Gaspar já haviam sido presos, na Operação Prato Feito – investigação sobre desvio de verbas da merenda escolar -, que antecedeu a Trato Feito.

Naquela ocasião, a PF fez buscas na residência do prefeito e do secretário de Governo. Na casa de Gaspar, os federais encontraram a pista que os faz colocar sob suspeita quase todos os vereadores de Mauá.

“Várias planilhas foram apreendidas na residência do secretário de Governo da Prefeitura junto ao dinheiro que foi apreendido na primeira fase”, informou o delegado da PF Victor Hugo Rodrigues Alves, que comanda a Trato Feito.

Segundo o delegado, ‘essas planilhas tinham o controle detalhado do recebimento do dinheiro das empresas e do repasse aos servidores e vereadores com a descrição minuciosa do nome de cada um e de quanto cada um estava recebendo’.

“Na planilha tinha o nome de 22 vereadores”, revela Victor Hugo.

São alvo da Trato Feito os vereadores Adelto Damasceno Gomes (Avante), o ‘Cachorrão’, Admir Jacomussi (PRP), pai do prefeito Átila, Cincinato Lourenço Freire Filho (PDT), o ‘Dr. Cincinato’, Fernando Rubinelli (PDT), Francisco Esmeraldo Felipe Carneiro (Avante), o ‘Chiquinho do Zaíra’, Gildázio Estevão de Miranda (PRB), o ‘Gil Miranda’, Helenildo Alves da Silva (PRP), o ‘Tchacabum’, Jair de Oliveira (MDB), o ‘Jair da Farmácia’, José Wilson Ferreira Silva (PPS), o ‘Melão’, Joelson Alves dos Santos (PSDB), o ‘Jotão’, José da Silva (PSDB), o ‘Pastor José’, Manoel Lopes dos Santos (DEM), Osvanir Carlos Stella (Avante), o ‘Ivan’, Ozelito José Benedito (Solidariedade), o ‘Irmão Ozelito’, Ricardo Manoel de Almeida (PTB), o ‘Ricardinho da Enfermagem’, Roberto Rivelino Ferraz (Democracia Cristã), o ‘Professor Betinho’, Robson Roberto Soares (PR), o ‘Betinho Dragões’, Samuel Ferreira dos Santos (PSB), o ‘Samuel Enfermeiro’, Severino Cassiano de Assis (PROS), o ‘Severino do MSTU’, Sinvaldo Sabará Gonçalves (Democracia Cristã), o ‘Sinvaldo Carteiro’, Vanderley Cavalcanti da Silva (Solidariedade), o ‘Neycar’, e Vladmilson Garcia (PRP), o ‘Bodinho’.

LEIA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA COM MARCELO OLIVEIRA, O 23.º

ESTADÃO: O sr é o único que não foi alvo da Operação Trato Feito.

MARCELO OLIVEIRA: É isso.

ESTADÃO: O sr já tinha ouvido falar do esquema que está sendo investigado?

MARCELO OLIVEIRA: Não. Na verdade, desde o primeiro dia de mandato eu sou oposição ao governo. Não tinha muita relação. As matérias nossas sempre foram rejeitadas. A maioria, né?

ESTADÃO: Surpreende que 22 dos 23 vereadores sejam alvo da operação?

MARCELO OLIVEIRA: Surpreende. Surpreende, eu convivo com eles todos os dias. Todos os dias, não, mas nas sessões. Tenho uma convivência. Tem vereador que está lá há 10 anos.

ESTADÃO: Alguém chegou a oferecer algo ao sr?

MARCELO OLIVEIRA: Não, nunca conversamos sobre isso, não.

ESTADÃO: Como está a situação da cidade?

MARCELO OLIVEIRA: Difícil. A situação já estava difícil. O prefeito já estava sem condições de governar, eu falei muitas vezes na tribuna pelo que já tinha ocorrido (prisão de Átila Jacomussi, em maio). Além da questão de governar, tem a questão financeira da cidade com tudo isso que está acontecendo. Entra um governo, manda embora, contrata outros. E tudo o que estão dizendo na investigação.

ESTADÃO: O prefeito Átila Jacomussi foi alvo de dois pedidos de impeachment. Ambos foram negados por 22 dos 23 vereadores.

MARCELO OLIVEIRA: Foi um pedido do PT e outro do PSOL.

ESTADÃO: Integrantes do PT já foram condenados por corrupção em outros esquemas. Desta vez, o PT é o único partido que não está investigado.

MARCELO OLIVEIRA: A gente consegue enxergar que não são partidos, né? Se você for ver na Lava Jato hoje, praticamente todos os partidos estão lá. Não são partidos, são pessoas. Trabalharam muito para endemoniar e colocar a culpa no PT nessa questão de corrupção, mas não é o partido, são pessoas.

ESTADÃO: Com quase todos os vereadores investigados, fica um clima de desconfiança na Câmara?

MARCELO OLIVEIRA: Eu sempre sou a favor de falar alguma coisa neste sentido quando se prova. Nós falamos de políticos do nosso partido, falamos de perseguição e tudo, enquanto não provar, e eu acredito que funciona assim. Está investigando, provou, aí, quem errou tem de pagar. É isso que eu defendo. Enquanto não provar, não dá para comentar dizendo que vai ter essa desconfiança.

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