Novos rumos da construção civil

Novos rumos da construção civil

Eduarda Fabris*

10 de julho de 2020 | 04h00

Eduarda Fabris. FOTO: DIVULGAÇÃO

Por ser o maior gerador de empregos da economia, causam temor indicadores de atividade da construção civil como o recente levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) que apontou uma queda de 38,8% nas vendas de imóveis novos em abril ante igual mês de 2019. No período, a redução no número de lançamentos alcançou 63%. Porém, mais do que tudo, os dados retratam o pânico inicial causado pela pandemia e refletem, dentre outros, a interrupção das visitações aos stands e unidades em exibição. Para alento geral, há segmentos da construção civil que se mantêm ativos e tendem a se recuperar no médio e longo prazos, impulsionando diversas cadeias a ela ligadas.

A procura por recursos é um indicador confiável sobre rumos que as empresas pretendem seguir. Nesse sentido, o crowdfunding imobiliário chega a ser mais assertivo até que os bancos, já que fornece capital para as etapas iniciais dos empreendimentos, justamente as não contempladas pelas fontes de financiamentos tradicionais. No modelo, a reunião de dezenas ou centenas de pequenos investidores cobrem custos inerentes a etapas dos projetos que antes dependiam, ou de caixa próprio das incorporadoras, ou do ingresso de um investidor qualificado que, ao aportar alguns milhões, tornava-se sócio do empreendimento.

Ao fornecer capital mais barato a incorporadoras, o modelo tem demanda crescente por parte das empresas, o que propicia às fintechs que atuam no segmento entender os rumos que a indústria segue e quais perfis de imóveis performarão melhor ou pior daqui para frente.

Sob esta ótica, o segmento comercial foi descartado. Se a pandemia derrubou as últimas barreiras para a ampla disseminação do e-commerce e do delivery, o mesmo vale para tendências como o coworking e home office, que estarão consolidadas em empresas de todos os portes quando o isolamento social e o lockdown forem descartados. A perda de receitas provenientes de locação imóveis comerciais afetará os proprietários, dentre os quais fundos imobiliários, que terão de repensar rapidamente a composição de suas carteiras.

Esta nova realidade impacta o trabalhador de várias formas. Se, por um lado, não será mais necessário despender horas indo e voltando diariamente do trabalho, por outro se sentirá a necessidade de mais aconchego e espaço em sua residência. No segmento de alto padrão, sempre menos impactado por crises, cresce a demanda por residências maiores, seja em empreendimentos em planta ou já existentes. Desta forma, tanto a concepção de novos projetos quanto a adequação de unidades espaçosas e até edifícios inteiros passam a ser do interesse da indústria da construção.

Se o cenário impulsiona a procura por determinados perfis de imóveis, há também uma grande demanda que, particularmente no país, sempre existiu. O déficit habitacional brasileiro é da ordem de 7,8 milhões de moradias, conforme a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc). A resolução deste problema social coincide com a busca do governo pela manutenção de algum nível de atividade econômica. Estímulos oficiais ao setor, como as recorrentes reduções dos juros dos empréstimos habitacionais pela Caixa Econômica Federal ou o programa Minha Casa Minha Vida manterão o giro deste segmento.

No mesmo sentido também seguem os sucessivos cortes nas taxas de juros. Além da redução ser uma das prioridades da equipe econômica do atual governo, a queda na atividade e consequente redução do consumo eliminam, no curto prazo, a possibilidade de surgir alguma pressão inflacionária que force uma reversão desta tendência. Esse movimento, que favorece desde o segmento popular ao de alto padrão, impulsiona os planos de famílias que, ao adquirirem seus primeiros imóveis, pagarão parcelas de financiamento inferiores a seus atuais custos com aluguéis, o que aquece a procura por imóveis novos.

Passado o pânico inicial, empresas retomam planejamentos adequados à nova realidade. Até pelas suas características, a construção civil pode adequar seu ritmo de atividade a momentos de menor demanda, tendo como horizonte prazos mais longos. Enquanto isso, precisará de recursos, particularmente os daqueles que, assustados com a instabilidade da bolsa, veem, com a menor taxa de juros da história do país, a economia real como principal opção de investimento.

*Eduarda Fabris é diretora-executiva da Urbe.me

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