Novo normal e a transformação digital na saúde

Novo normal e a transformação digital na saúde

Giovani Lucena*

05 de março de 2021 | 10h59

Giovani Lucena. Foto: Divulgação

É improvável imaginar um cenário nesta década em que as transformações digitais não sejam uma realidade, desde as novas formas de trabalho, como o home office, quanto o estilo de vida das pessoas. O advento de tecnologias como o 4G e a chegada de várias marcas de smartphones, que se encaixam na realidade financeira de grande parte dos brasileiros, se tornaram um produto indispensável e contribuíram para que o maior número de pessoas estivesse inserido nesse novo tempo.

O universo digital tomou conta do mercado por duas razões: pela comodidade, pois evita-se deslocamento e burocracias tradicionais, e pela adaptabilidade, sendo este um ponto importante a se aprofundar. Quando falamos de adaptabilidade, logo lembramos de Darwin, criador da teoria evolucionista. Segundo o pesquisador, se adaptar é gerar aprendizados que favoreçam a sobrevivência da espécie. E na Era da Informação, sobreviver é estar vinculado ao mundo digital, para manter a sua relevância e visibilidade.

Desta forma, chegamos ao ponto de falarmos sobre a saúde. É constatado que o atual momento trouxe consequências significativas para a saúde física e mental das pessoas. O Brasil é o país com mais ansiosos no mundo, com 9,3%, e o quinto com mais depressivos no mundo, sendo 5,8% da população. Além disso, a segunda maior causa de morte entre 16 e 30 anos é o suicídio e transtornos mentais, sendo eles o terceiro maior motivo no afastamento de trabalho. Dados suficientes para mostrar a importância de cuidar da saúde mental. No entanto, uma pesquisa do Marketing Analysis aponta que apenas 2% dos brasileiros buscam um profissional de saúde mental quando passam por algum problema pessoal significativo.

Em tempos de isolamento social, as healthtech, que são por essência startups que visam oferecer alguma melhoria relacionada à inovação tecnológica em saúde, também conquistaram seu espaço. O surgimento destas empresas profissionalizou a atuação de especialistas na área da saúde dentro do meio digital, pois ofereceu a eles formas menos burocráticas para gerenciar os compromissos profissionais.

O advento destas tecnologias também impulsionou o crescimento de salas de vídeo com interação em tempo real, seguindo normas sigilosas para atendimento, abrindo a oportunidade para consultas online e a busca por pacientes digitais. O que era um método de atendimento alternativo, se tornou fundamental durante o período de pandemia. Pesquisas feitas pelo GetNinjas indicam que o número de buscas para atendimento online subiu em 32% no intervalo de março até setembro de 2020.

Muitos profissionais e pacientes ainda são resistentes a essa nova forma de atendimento, principalmente pela vinculação que sendo virtual, se perde parte da empatia e humanização tão necessária no acolhimento e estabelecimento de um vínculo com o outro. Mas convenhamos, estar fisicamente em um lugar com alguém, não é sinônimo de atendimento humanizado.

Se importar e se colocar no lugar do outro são virtudes possíveis de serem exercidas a distância, pois as principais características de um bom atendimento continuam ali: a escuta cuidadosa, a fala ponderada e pontual, como forma de intervenção.

Vale ressaltar que problemas técnicos podem surgir, como uma instabilidade de conexão, queda de energia, etc. Mas quem garante que presencialmente, o acaso também não apronte algum imprevisto? Continua sendo comum atrasos de sessão, ausência, remarcação na forma de atendimento tradicional. Viver é, acima de tudo, saber que não temos controle sobre tudo.

Em contrapartida, o atendimento virtual tem suas vantagens. Na perspectiva do paciente, há uma maior flexibilidade para horários compatíveis para uma sessão e também não é necessário o deslocamento para se consultar. Do ponto de vista do profissional pode-se obter uma significativa economia de custos, ao se dedicar no seu próprio ambiente virtual restrito, ao invés, por exemplo, de pagar por aluguel de sala e outros custos relacionados.

Portanto, a evolução e a adaptabilidade nos apresenta sempre para o novo, pois o antigo não caiu em desuso sem nenhum motivo. Isso ocorreu porque novos métodos, mais eficazes para realizar atividades, foram desenvolvidos. Quem garante que profissionais ou pacientes realmente desejam voltar à antiga realidade de papéis? Invariavelmente, uma nova geração de profissionais insistirá que este é o novo caminho de atendimento, o digital.

*Giovani Lucena é psicólogo do PsicoManager

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