Novo delator tinha crachá da Petrobrás de acesso a estaleiro

Novo delator tinha crachá da Petrobrás de acesso a estaleiro

Milton Pascowitch tinha entrada livre em estaleiro da Engevix e acompanhava construção de cascos de plataformas para a estatal, segundo sócio da empreiteira

Redação

30 de junho de 2015 | 18h23

Lobista Milton Pascowitch, preso pela Lava Jato, acusado de pagar propina

Lobista Milton Pascowitch, preso pela Lava Jato, acusado de pagar propina

Por Fausto Macedo, Julia Affonso e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

O lobista Milton Pascowitch, novo delator da Operação Lava Jato, tinha crachá da Petrobrás de livre acesso ao Estaleiro Rio Grande (RS), onde participava de reuniões e acompanhava as construções dos cascos das primeiras plataformas brasileiras para uso nos campos do pré-sal, na Bacia de Santos.

Os contratos do estaleiro comprado, em 2010, pela Engevix Engenharia são alvos da nova etapa das investigações, que mira a reprodução do esquema de cartel e corrupção descoberto nas obras de refinarias em outros setores como a área naval e de plataformas.

O crachá foi apreendido pela Polícia Federal em buscas realizadas em maio nos endereços de empresas de Pascowitch, em São Paulo. O documento foi apresentado a um dos sócios da Engevix – empresa para quem o lobista é acusado de operar propina – Gerson de Mello Almada.

“No tocante ao crachá (…), onde Milton Pascowitch consta como ‘Diretor Executivo’ da Engevix afirma que o mesmo foi confeccionado pela Petrobrás e visava permitir o ingresso de Milton nas dependências do Estaleiro Rio Grande”, contou o empresário, em depoimento prestado no dia 10 de abril.

CRACHA MILTON

Preso em maio pela Lava Jato e acusado de ser um dos operadores de propina via contatos na Diretoria de Serviços da Petrobrás, Pascowitcht foi liberado na segunda-feira, 29, para cumprir preventiva em regime domiciliar, monitorado por tornozeleiras eletrônicas. A medida faz parte de acordo de delação premiada fechado com o Ministério Público Federal.

A colaboração de Pascowitch, proposta pela defesa do investigado, era considerada importante para descobrir se falsas consultorias serviram para ocultar propina para o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. A Jamp Engenheiros Associados, que pertence ao lobista, pagou R$ 1,4 milhão entre 2011 e 2012 para a empresa do ex-ministro JD Assessoria e Consultoria.

Pré-sal. A descoberta de documentos e a colaboração de outros alvos da Lava Jato, levaram investigadores a acreditar que, além de detalhar se houve irregularidades nos pagamentos ao ex-ministro, Pascowitch será peça-chave para aprofundar as investigações de corrupção e fraudes em contratos de estaleiros, navios, plataformas e sondas.

Um desses negócios a ser detalhado pelo lobista será a compra do Estaleiro Rio Grande, em 2010, pela Engevix e o fechamento de dois contratos bilionários para a construção de 8 cascos de plataformas (FPSOs), com a Petrobrás, e três navios-sondas com a empresa Sete Brasil – criada pela estatal com investidores privados e fundos de investimento.

“(Pascowitch) acompanhava a construção dos cascos, das obras do ERG (Estaleiro Rio Grande) 2 e participava de algumas reuniões”, afirmou Almada. Preso em 14 de novembro de 2014 e desde abril em prisão domiciliar, o dono da Engevix detalhou o papel de destaque de Pascowitch no negócio do Estaleiro Rio Grande.

crachá erg milton pascowitch

Almada não virou delator, como Pascowitch, mas colaborou com a Justiça ao confirmar pagamentos de “lobby” como forma de garantir contratos na estatal.

Quanto a identificação de diretor registrada no crachá da Petrobrás, Almada afirmou que acredita que “tenha ocorrido um equívoco quando ao fornecimento da qualificação de Milton para a Petrobrás, pois este nunca foi diretor da Engevix”.

O sócio da empreiteira afirmou que o lobista abria portas na Petrobrás, mantendo contatos com o PT e o ex-diretor de Serviços Renato Duque – cota do partido no esquema de loteamento político de cargos na petrolífera.

DEPOIMENTO ALMADA SOBRE CRACHÁ

Elos. Investigadores da Lava Jato suspeitam que o esquema sistematizado de corrupção em obras de refinarias foi espelhado nos contratos do pré-sal. Nele, empresas do cartel pagavam propinas que iam de 1% a 3% do valor dos contratos a agentes públicos, partidos e políticos – sob o comando de PT, PMDB e PP.

A construção dos cascos de plataformas, que era acompanhada por Pascowitch, segundo Almada, foi um dos contratos em que o lobista acertou o recebimento de US$ 120 milhões com a Engevix.

“A fim de viabilizar o negócio foram firmados contratos com a Jamp de Milton Pascowitch, no valor de aproximado de US$ 120 milhões”, contou Almada. ”Parte desse valor, US$ 10 milhões foi pago mediante outro contrato com uma empresa internacional vinculada a Milton, de nome MJ2 Internacional.” Na transcrição do depoimento de Almada, a Polícia Federal registrou a cifra em reais (R$ 120 milhões). Mas, por extenso, anotou o valor em dólares (120 milhões de dólares).

O primeiro casco das plataformas tipo FPSOs (sigla em inglês para unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência de óleo) Replicantes foi entregue em dezembro do ano passado para montagem da P-66 – que está no Estaleiro BrasFels, em Angra dos Reis, e entrará em operação em 2016, no Campo de Lula (BM-S-11), Bacia de Santos. As outras plataformas cujos cascos serão entregues pelo Estaleiro Rio Grande são: P-67, P-68, P-69, P-70 e P-71.

COM A PALAVRA, A DEFESA

MILTON PASCOWITCH

O criminalista Theo Dias, que defende Pascowitch, disse que ‘não pretende se manifestar’. Nesta segunda-feira, 29, Theo Dias entregou petição ao Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF4) em que desiste de habeas corpus que havia impetrado pedindo liberdade para seu cliente. A desistência do habeas é uma das condições impostas aos que se propõem a colaborar.

ENGEVIX

A Engevix está prestando os esclarecimentos necessários à Justiça (quanto aos pagamentos para Milton Pascowitch).

O Estaleiro Rio Grande foi disponibilizado pela Petrobras a todos os participantes da licitação para a construção dos cascos para o Pré-Sal. Não foram as empresas vencedoras que compraram o estaleiro, foi a Petrobrás que ofereceu o usufruto para o vencedor.

Depois de vencer uma acirrada concorrência internacional, a Ecovix investiu cerca de R$ 1,1 bilhão para ampliação do estaleiro ERG1, construção do ERG2 e aquisição do maior pórtico do mundo. A compra do ERG1 foi da ordem de R$ 400 milhões. A decisão se explica porque a Ecovix entendeu que seria melhor comprá-lo, investindo na região, ao invés de ficar apenas com 8 anos de usufruto concedidos pela Petrobrás.

A empresa Sete Brasil negociou as 29 sondas com todos os estaleiros qualificados no Brasil para a sua construção. As sondas foram negociadas a preços de mercado, muito semelhantes entre si. O Estaleiro Rio Grande ficou com o menor lote (3 sondas).

O contrato com a JD Consultoria, como detalhadamente esclarecido nos depoimentos à Justiça, foram relativos a abertura de oportunidades na América Latina, em particular no Peru e em Cuba e é anterior ao negócio da Petrobras.
Os serviços foram prestados, mas nenhum contrato foi fechado por conta desta consultoria de curto prazo para o desenvolvimento de negócios.

COM A PALAVRA, JOSÉ DIRCEU

O ex-ministro José Dirceu não teve qualquer envolvimento em contratos para construção de plataformas nem com o estaleiro em questão. Os contratos da JD com a Engevix e com a JAMP tiveram o objetivo de prospectar negócios para a construtora no Peru, o que é confirmado pelos executivos da Engevix.

No tempo de vigência do contrato, a construtora atuou em estudos para construção de hidrelétrica, projetos de irrigação e linhas ferroviárias no Peru.

O ex-ministro já reiterou em mais de uma oportunidade que não teve qualquer ascendência na nomeação de Renato Duque para diretoria da PetrobrÁs.

O ex-ministro, espontaneamente, já apresentou ampla documentação sobre seus contratos de consultoria e, por duas vezes, já se colocou à inteira disposição da Justiça do Paraná para prestar depoimento.

 

 

 

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